neon

NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Se há uma coisa realmente triste durante a projeção de um filme, é ver o longa perder completamente o seu rumo, degringolar, sair de seu caminho de uma vez por todas. É pior ainda quando a trama, ainda que previsível, é interessante – parecendo ser capaz de render bons frutos, inclusive – e quando o diretor é o responsável principal pelo fiasco. Esse, infelizmente, é o caso do trabalho de Nicolas Winding Refn (ou NWR, como se auto-intitula) em “Demônio de Neon”.

Jesse (Elle Fanning) é uma jovem e belíssima órfã que chega à cidade de Los Angeles buscando se tornar uma modelo. Logo, sua beleza chama a atenção das agências e dos empresários e ela começa a subir na carreira rapidamente, despertando inveja e ódio por onde passa. A trama tem outros pontos que não são desenvolvidos e as coisas caminham, mal ou bem, neste caminho até que tudo começa a dar errado de fato.

Criar um bom filme a partir de um fiapo de narrativa não é tarefa estranha a NWR (seu nome é muito longo, melhor usar logo a abreviação). Afinal, “Drive” é, sem sombra de dúvidas, sua obra-prima, um filme cuja trama solta pedia uma narrativa conceitual e estilizada. Então, era de se acreditar que com uma trama mais encorpada e ambientada no mundo da moda, que NWR poderia entregar um filme bom narrativa e esteticamente – o que não acontece.

Priorizando muito mais o visual, NWR gera um produto plasticamente belo. Suas escolhas de planos e a ótima direção de fotografia de Natasha Braier fazem com que a questão visual de “Demônio de Neon” seja mais do que bem resolvida. É nítido que o diretor sabe bem o que faz e que entende a cinegrafia (a escrita em imagens cinematográficas) como poucos outros artistas hoje em dia. O problema, contudo, é que ele se convenceu de que é o melhor diretor vivo.

Essa inabalável certeza faz com que NWR não veja seus próprios exageros e insista, consequentemente, na auto-indulgência de sua obra. Daí, resulta que o filme – que não é episódico – pareça apenas uma costura mal-feita de pedaços fílmicos autônomos entre si dada a montagem quase amadora que NWR escolhe imprimir em seu longa; ainda, a obra, no fim, é apenas um arremedo de uma trama, tendo seu significado todo esvaziado por uma direção quase publicitária.

O que não é algo prejudicial dependendo de como essa estética é empregada. David Fincher, por exemplo, é dos geniais diretores contemporâneos que começou na área publicitária e que trouxe essa estética para seus filmes com muito sucesso. Portanto, o problema mesmo, neste caso, é todo de NWR, que não sabe o que fazer com seu roteiro. É o clássico caso do diretor que estraga o seu trabalho como roteirista.

É assim que, por exemplo, Keanu Reeves, que entrega um papel muito sólido e divertido em toda sua canastrice característica, se torne uma oportunidade completamente perdida dentro da trama e que todo o pano de fundo de suspense, violência e terror nunca se concretize em algo além de um show de bizarrices infundadas e inócuas que, possivelmente, não encontrará similaridades no cinema mundial recente. É tudo feito para chocar – e a sorte do diretor é que, ocasionalmente, a intenção original não é atingida, mas o público acaba se divertindo.

É provável que não existam meios termos quanto a este novo filme de NWR: é o tipo de obra ame ou odeie – é difícil ficar indiferente ao compêndio de loucuras, de excentricidades e de egocentrismos que forma este filme. E, no fim das contas, “Demônio de Neon” acaba parecendo mesmo um longo comercial de uma marca de óculos ou de um perfume qualquer. Nicolas Winding Refn (o fato do design de sua sigla, NWR, que acompanha os créditos iniciais como uma marca d’água, se assemelhar a uma grife não é mera coincidência) não fez cinema; fez publicidade – de si mesmo.

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