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Cinema2Manos

Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

outubro 2016

O Convite (Karyn Kusama, 2016)

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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Will (Logan Marshall Green), sentado em um dos degraus de sua antiga casa, mal ouve o que Claire tem a dizer. Tudo o que ela fala se perde no ar porque Will não consegue tirar os olhos de Pruitt (John Carrol Lynch), um misterioso desconhecido que acaba de adentrar a casa. Aparentemente, o grande homem é dócil, mas Will sabe que essa não é a verdade. “O Convite”, assim, nos impõe constantemente o limiar entre a realidade e a loucura. Continuar lendo “O Convite (Karyn Kusama, 2016)”

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A Garota no Trem (Tate Taylor, 2016)

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NOTA: 7 / Nathalia Barbosa

Seguindo o sucesso de Garota Exemplar, “A Garota do Trem”, livro de Paula Hawkins adaptado para o cinema por Tate Taylor, aborda a mesma temática, mas de uma forma diferente: há uma trama de relacionamentos abusivos, mas as mulheres do filme quase não têm potência de ação.

Tudo se desenrola a partir de uma narrativa em voz off, materializando os pensamentos de Rachel Watson, interpretada por Emily Blunt: uma mulher observadora que anda de trem, pensando sobre a vida das pessoas que ocupam casas próximas à linha férrea. Em suas viagens, há sua casa preferida, com o endereço Rua Blenheim Road, 15, ao lado de seu antigo lar. Imaginando uma vida ideal e perfeita do casal que vive em sua casa favorita, ela compara com sua antiga realidade no imóvel ao lado, quando ainda era casada com Tom (Justin Theroux).

A linha de conflito se desenvolve quando Rachel retoma memórias confusas de seu casamento arruinado por desordens relacionadas à sua incapacidade de ter filhos. Rachel não conhece, pessoalmente, a mulher que julga ter a vida perfeita, Megan Hipwell (Haley Bennett), mas, atrelada à sua trama, há a personalidade rude desta e que recusa o apego a crianças, negando o papel da sociedade que impõe a obrigação de ser mãe.

Nesse contexto de julgamentos e o que poderia ser, na imaginação de Rachel em suas viagens, há o valor de veracidade das memórias e conduta de Rachel colocado à prova por conta de seu vício em álcool. O drama da moça recém-separada e que se culpa frequentemente aumenta quando Megan desaparece e ela é vista como a principal suspeita.

É a partir desse momento que o suspense sedutor do longa realmente se desenvolve. Porém, seria realmente instigante se a narrativa não fosse tão óbvia por conta de uma direção nada criativa, que, praticamente, encaixa as sequências de fatos em uma estrutura que mostra ao espectador que o ocorrido nunca está próximo da investigação da polícia; ela mesma minimiza a curiosidade por esclarecer e desfazer, antes do tempo, suspeitas relacionadas a outros personagens.

Além disso, usando a atmosfera comum de tons frios, altamente puxados para o azul como no longa de David Fincher, no qual se inspira, o revezamento de planos é totalmente óbvio, colocando sempre quem está falando em evidência no primeiro plano e, muitas vezes, próximo ao centro, enquanto quem está na escuta é desfocado no segundo plano.

Outro aspecto que desagrada é que, apesar da ampla movimentação de lateralidade da câmera – provavelmente, fazendo referência ao aspecto de visão de um trem em deslocamento – não há uma criatividade do enquadramento, não tendo, nem mesmo, uma boa alternância entre afastamento e close ora para provocar a sensação de impossibilidade de resposta por parte do espectador, ora para explorar provas e cenas que poderiam ser curiosas, mas que passam sem maestria por não serem bem aproveitadas e servirem apenas para ligar sequências aparentemente sem muita semelhança, evitando qualquer quebra não didática da história.

O tema central, trazendo relacionamento abusivo e sororidade entre mulheres é, realmente, super interessante. O filme também possui cenas belíssimas e comoventes, mas, por pecar altamente na falta de inovação da direção e da fotografia, consequentemente, sem êxito para se destacar de “Garota Exemplar”, a impressão que dá é que nós já sabíamos, desde o começo, todo o filme, mas o assistimos apenas para confirmarmos o que estávamos pensando, já que a estrutura de suspense que o filme propõe é tão óbvia que mina o esforço do público em desvendar o mistério e descobrir quem é, verdadeiramente, a Garota do Trem.

Christine (Antonio Campos, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado*
Reunida na sala, uma família se aquece com a luz azulada e fria que vem da lareira no centro da sala, alimentado não pelo calor da lenha a queimar, mas pelo calor de um bombardeamento incansável de imagens atrás de imagens. Como diria David Foster Wallace, a tv é uma lareira – e o seu fogo pode ser tão perigoso quanto o das chamas que conhecemos. “Christine”, novo filme de Antonio Campos, tem plena noção disso.

Ambientado na década de 1970 (ótima direção de arte e ótimos figurinos), esta é a história real de uma repórter que, obrigada a se render ao sensacionalismo, perde seu referencial, seu chão. Christine Chubbuck, a jornalista, é vivida por Rebecca Hall, em uma fantástica interpretação, já cotada ao Oscar de Melhor Atriz; a melhor performance de sua carreira, que traz várias nuances e detalhes ao retratar a depressão e a paranoia de sua personagem.

No constante combate entre a informação e o entretenimento, o jornalismo sofre nas mãos das engrenagens da sociedade do espetáculo. “Se sai sangue, vira manchete”, dita o editor do telejornal: essa é a ideia. Já sabemos o que a banalização da violência faz com os telespectadores; o grande ponto aqui é que Campos vira as câmeras para os bastidores – e é algo feio de se ver.

A montagem quase teatral, que respeita as pausas e o tempo de cada cena traz um incômodo: ver a luta de Christine contra a indústria e contra seus próprios demônios é como assistir à luta entre Davi e Golias. A tensão gerada por um combate trágico é que vemos e torcemos por alguém que não pode escapar de seu destino.

É uma verdadeira ditadura do entretenimento. O que vende é o sofrimento – muitas vezes de quem é retratado e de quem produz o retrato. Sem fazer de seu próprio filme um espetáculo, Campos filma essa jornada pessoal (ainda que foque menos que o necessário na deterioração da psique de Christine), esse turbilhão de sentimentos de maneira elegante e objetiva, e abre duas janelas para o espectador.

A primeira é para as doenças da mente; a segunda da diretamente para o caos que é tratar o caos de uma maneira espetacular. As engrenagens do que diverte são movidas, muitas vezes, a sangue e tinta. E ainda que seu filme acabe se prolongando um pouco além da conta, perdendo um pouco de sua potência, Campos nos propõe um debate cuja conclusão é dolorosa: na guerra do espetáculo do “show do eu”, os derrotados somos nós mesmos.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

O Contador (Gavin O’Connor, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

A um quilômetro e meio de distância de sua mira, três melões estão equilibrados em estacas, no topo das cercas que delimitam as terras da fazenda de um de seus clientes. Lá, em uma calma tarde, Christian Wolff se estica sobre o gramado e se prepara para treinar sua pontaria. Os donos da casa, um casal de trabalhadores simples, mal consegue acreditar que o principal hobby do contador local é atirar com um rifle de precisão. Então, quando ele acerta os alvos, a surpresa dos dois é maior ainda. “O Contador” também é assim: surpreendente – ainda nem sempre positivamente.

Parte comédia, parte drama, parte thriller econômico e parte filme de super-herói, o novo filme de Gavin O’Connor – responsável pelo ótimo “Guerreiro” – é um filme que sofre com mudanças muito bruscas de gênero. O roteiro, que quase nunca justifica esse entrelaçamento de gêneros, é um problema para o tipo de diretor que é Gavin O’Connor.

Especialista em tramas menores, mais intimistas e em dramas familiares e/ou esportivos, é visível o conforto que O’Connor sente ao conduzir as seções mais dramáticas da trama, espaço onde consegue fazer fluir as emoções e os sentimentos de seus personagens ao lançar um olhar aprofundado para as relações entre cada um.

É por isso que quando O’Connor consegue fazer com que a trama de “O Contador” se conforme em ser um drama de um homem portador de autismo que precisa encontrar o seu lugar na sociedade, vencendo os preconceitos, o filme realmente triunfa. A cena final, por exemplo, é de uma sensibilidade especial; O’Connor é especialista em arrancar um sorriso melancólico e agridoce de sua plateia; sua direção lembra os filmes mais otimistas da “escola” da Nova Hollywood, nos anos 70.

Através de sua competência, O’Connor consegue salvar “O Contador” ao relaxar as amarras da trama e afrouxar a seriedade proposta pela escrita de Bill Dubuque – que praticamente sabota a obra. No fim das contas, o filme, que nem sempre é tão inteligente quanto gostaria de ser em suas reviravoltas, entretém

Apoiado por boas interpretações – principalmente da parte de Ben Affleck, que aqui compõe um papel sensível e interessante, conquistando o espectador com sua tão criticada inexpressividade e de Jon Bernthal, que é sempre divertido e ameaçador -, “O Contador” é entretenimento puro – uma boa e velha diversão cinematográfica.

 

Eis os Delírios do Mundo Conectado (Werner Herzog, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado*

Chegará o momento em que as máquinas e a internet sonharão? É possível desenvolver uma máquina que prevê quando uma pessoa está prestes a se apaixonar pela outra? Nossos cérebros se tornarão tão conectados que não precisaremos mais conversar uns com os outros, bastará “ler” mentes? No futuro, a ideia de que os seres humanos não vão mais precisar do contato entre si será um conceito aceitável? Provocador como sempre, Werner Herzog está de volta em “Eis os Delírios do Mundo Conectado”.

Dividido em 10 capítulos, o novo documentário do cineasta alemão é um verdadeiro panorama dos nossos tempos e de nossa relação com a tecnologia: as origens da internet; o lado negro da conectividade; a possibilidade de vida em Marte; o desenvolvimento de uma consciência semi-humana por parte da inteligência artificial; um cataclismo mundial causado pelas leis do universo e do comportamento dos raios solares – que derrubariam a eletricidade e a internet; a responsabilidade pelos atos em uma era do anonimato, a confiança, a moral; e, enfim, o futuro. Aqui, e como de costume, nada escapa ao olhar de Herzog.

Por meio de sua característica narração poética – sua voz sempre retumbante, profunda, rascante, assombrosa -, o cineasta cria mais uma obra pertinente à questão que ele coloca em quase todos os seus filmes: quais são os limites do ser humano quando um indivíduo, ou um grupo de indivíduos, encara uma situação ou uma condição extrema?

Herzog raramente nos dá respostas. Na verdade, seu cinema é feito para incomodar, tirar do lugar comum ao nos apresentar as fronteiras e a loucura do ser humano. Herzog nos larga à beira do abismo e nos força a olhar para a imensa escuridão que se põe à nossa frente; infelizmente, em “Eis os Delírios”, a abordagem do alemão é tão superficial quanto é profundo o abismo da internet e da conectividade no mundo contemporâneo.

É um problema de recorte. Tanto na ficção ou no documentário, Herzog sempre foi um mestre da seleção: habilmente, ele sempre encontrou casos estritamente específicos para retratar um aspecto universal da condição humana. No entanto, a narrativa panorâmica de “Eis os Delírios” não impulsiona o estilo de Herzog. O cineasta acumula entrevistas e testemunhos acerca de uma coletânea de temas sem se aprofundar, de fato, em nenhuma problemática particular; a força de seu cinema nunca residiu em uma narrativa tangencial.

Por isso, “Eis os Delírios do Mundo Conectado” demora a engrenar. É só quando Herzog deixa a fundamentação histórica de lado, na metade final, e parte para a análise da inteligência artificial, que o documentário ganha uma certa coesão. Nos últimos capítulos, é possível ver uma unidade de pensamento e de argumentação que os une – o que, coincidentemente ou não, instiga Herzog a entrar em seu modo questionador, formulando perguntas perturbadoras, poéticas e pertinentes.

Apesar de tudo, o documentário traz, ainda, personagens excêntricos e interações interessantes criadas por Herzog – como o hacker e a mãe que perdeu sua filha e acredita que a internet é uma verdadeira cria das trevas. No fim das contas, Herzog continua conduzindo as múltiplas vozes de seus entrevistados como os diversos instrumentos de uma orquestra.

Justamente, fica a sensação de que se cada capítulo de “Eis os Delírios” fosse um filme em si, com tempo suficiente de aprofundamento em cada temática trazida à tona, teríamos uma série fantástica sobre a conectividade. Apressado e curto demais para o próprio bem, “Eis os Delírios do Mundo Conectado”, ainda assim, é mais uma demonstração da habilidade que Herzog possui de nos tirar da nossa zona de conforto.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

Divinas Divas (Leandra Leal, 2016)

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NOTA: 7,5 / Renato Furtado*

Sentada em um bar, conversando com a câmera, Rogéria mal percebe a aproximação da fã. Nervosa, a “intrusa” invade o campo do cinema, de repente, para declarar toda sua admiração e gratidão pelo trabalho da performer e cantora. “Divinas Divas”, primeiro filme de Leandra Leal, é recheado de momentos como esse: emocionantes, divertidos e verdadeiros.

Utilizando a própria voz, a diretora traz para si o papel de narradora e de guia, costurando um tecido narrativo riquíssimo composto pelas histórias das oito divas que retrata; cenas dos ensaios que as artistas realizam para se preparar para o seu grande espetáculo de despedida; um registro do show em si; e imagens de arquivos e memórias tanto das divas quanto da própria Leandra Leal acerca da história cultural do Rio de Janeiro e do Teatro Rival, palco hoje comandado pela própria diretora.

Aliás, sem mencionar o Rival e o cenário cultural da cidade carioca, aliás, não haveria “Divinas Divas”. A atuação dessas oito travestis e de outras tantas célebres artistas modificaram por completo a natureza dos espetáculos teatrais. Portanto, é apenas natural que a paisagem das lembranças da diretora se misture à paisagem das lembranças contadas pelas oito: esta é uma cinebiografia sobre essas oito mulheres e sua arte, sobre memórias, sobre um Rio de Janeiro que deixou de ser o que era.

Transbordando afeto e paixão ao registrar a grande coragem das oito, o documentário de Leal é quase um antídoto à violência e à crueldade da forte onda de conservadorismo e de ódio que, infelizmente, tomou conta da sociedade brasileira nos últimos tempos. Ainda que a cineasta não entre em um âmbito político, o retrato que realiza de suas personagens é bastante político em si; afinal, ser quem se é, derrotando ou pelo menos sobrevivendo às pressões e estruturas sociais, também é um ato político.

Independe se as divas são homens ou mulheres: Leal, sensivelmente, abre espaço para que elas se mostrem, antes de mais nada, como os seres humanos maravilhosos e as artistas incríveis que são em todas as suas qualidades, falhas, memórias, paixões e sonhos. “Divinas Divas” é um conto que nos seduz e nos dá uma pontada de esperança: é difícil, ao final da projeção, não acreditar que essas artistas são verdadeiramente divinas – e é mais difícil ainda não se tornar fã da trajetória de cada uma delas.

É verdade que a estrutura de entrevista-ensaio-espetáculo montado acaba tornando a narrativa um tanto quanto repetitiva; contudo, o retrato é tão delicioso de se ouvir e de se ver que a duração mais alongada do filme – que seria ainda mais potente se fosse mais curto e incisivo – é um acidente de percurso mais do que perdoável.

Porque, no fim das contas, importa o fato de que este é um filme para sorrir, rir, se inspirar e se emocionar do início ao fim. Seguro de si mesmo, como as suas divas são, “Divinas Divas” é uma verdadeira festa, uma verdadeira celebração cheia de glitter, verdade, humanidade, arte e um quê de divino; é afeto puro em forma de longa-metragem.

 

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

Três (Johnnie To, 2016)

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NOTA: 6 / Renato Furtado*

A Dra. Tong, derrotada e deprimida, à beira do desespero, desce as escadas do hospital, tentando deixar tudo para trás. Mas o peso do mundo está em suas costas e quando ela atinge a metade da escadaria, seu corpo exausto desaba sobre os degraus. Dramaticamente, ela se levanta, o olhar indicando uma reviravolta: ela não vai desistir de tentar salvar seus pacientes, apesar dos erros que cometeu. Intensidade é a palavra-chave de “Três”, novo filme do mestre do cinema de ação chinês, Johnnie To.

No auge de seus 61 anos de idade, o cineasta demonstra, mais uma vez, que sua energia é igual a de um estreante na direção. To costura uma agitada trama médica/policial em que uma neurocirurgiã se vê no meio da linha de fogo entre um bandido, que está com uma bala alojada na cabeça e precisa ser operado às pressas e as forças da polícia, que permanecem na ala médica para garantir que o criminoso não acorde.

Construído através da rota de colisão de todas as forças em jogo, “Três” é uma bomba-relógio em duas instâncias: em termos de história e em termos narrativos. To imprime um senso de urgência tão elétrico que faz com que até mesmo as cenas dramáticas pareçam ser sequências de ação. A todo momento, sentimos que toda e qualquer interação dramática desembocará em um tiroteio inevitável. E, de fato, é tudo tão divertido que torcemos para que isso aconteça.

“Três”transborda um certo “desespero” que é entretenimento puro. Por meio da condução frenética de To – que frequentemente nos coloca dentro da ação, até mesmo dentro de um corpo no meio de um processo cirúrgico -, o insano trabalho de câmera segura o espectador pelos ombros e o arrasta para frente, para trás e para os lados, passeando pelos corredores, elevadores, salas cirúrgicas, trocas de olhares silenciosas e discursos filosóficos do inteligente bandido que incrementam o nível de tensão e suspense.

No entanto, o roteiro, por sua vez, deixa a desejar em alguns pontos, sabotando o longa. Escrito a seis mãos, o texto apresenta diversas subtramas dramáticas que acabam se assemelhando a pontas soltas, uma vez que a curta duração do filme não permite que To desenvolva as histórias de cada paciente. Além disso, as cenas cômicas  – o policial gordinho é um alívio cômico que não funciona – não são boas.

É por isso que frequentemente desejamos voltar logo à trama principal – que, infelizmente, acaba sofrendo com o seu desfecho, uma sequência final estranha, estabanada e mal resolvida de um tiroteio em slow-motion.

No fim das contas, “Três” parece ser uma locomotiva sem freio. Na maior parte do tempo, o movimento constantemente insano e acelerado do comboio cria uma aventura empolgante e divertida, ainda que um tanto quanto trepidante. Do contrário, quando o condutor leva a intensidade ao seu nível máximo, esquece que menos, às vezes, é mais.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio 2016

Kubo e as Cordas Mágicas (Travis Knight, 2016)

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NOTA: 8 / Renato Furtado

Quando Kubo, logo no início de Kubo e as Cordas Mágicas, nos diz para não piscar, para não perder nenhum detalhe e para não esquecer nenhuma parte da história que nos conta, essa pode parecer uma tática preguiçosa. Pode soar, inclusive, indecoroso que um filme nos peça nossa atenção ao invés de conquistá-la. Contudo, isso não passa de um floreio: afinal, mal sabemos que não vamos conseguir desviar o olhar da tela.

Na encruzilhada entre a sensibilidade poética e folclórica do Japão e a estética épica dos filmes de aventura dos Estados Unidos, entre influências orientais e “disneynianas”, o cineasta Travis Knight nos entrega aquele que pode ser o longa de animação mais surpreendente e afetivo de 2016: a história de Kubo, um exímio contador de histórias que conhecerá o verdadeiro poder das palavras.

Todas as tardes, após o calor do meio-dia, o jovem, com o seu tapa-olho escondido pela grande franja que cai sobre sua testa, toca um acorde em seu shamisen – guitarra tradicional japonesa – parando a cidade: todos sabem que é hora de ouvir a lenda do samurai Hanzo, um guerreiro em busca de uma armadura mágica.

Mas, assim que o sol começa a descer, Kubo interrompe seu relato e corre para casa, deixando os espectadores órfãos de um final. É que ele não pode ficar longe da mãe e de casa à noite: sob o céu noturno, o jovem corre o risco de ter seu outro olho roubado por seu avô, um poderoso feiticeiro. Não demora para o jovem narrador perceber que não pode mais fugir – e, a partir daqui, sentimos um déja-vu.

A trama do longa é uma jornada de herói clássica – Kubo recebe, inclusive, a ajuda de dois personagens cruciais para esse modelo de narrativa, uma mentora e um protetor (a macaca e o besouro samurai). Em Kubo e as Cordas Mágicas, pouco importa o não ineditismo de suas reviravoltas: o que faz o filme ser grande é a condução de Knight, onde o que importa é o “como” e o “por que” e não o “que” é narrado.

A singela direção de fotografia, que explora uma paleta de cores vibrante, e a criatividade ímpar de Knight para construir ótimas sequências cinematográficas dão ao filme beleza e vivacidade: sentimos essas qualidades nas divertidas batalhas de origamis e na cena em que as lanternas flutuam rio abaixo, em direção ao sol que se põe entre as árvores. São esses os aspectos que permitem que Knight componha uma obra sobre o ato de narrar.

É natural que Kubo prefira as cordas do seu shamisen ao fio da espada. Ele não é um guerreiro; é um contador de histórias. Os humanos são seres que vivem de narrativas. Grande parte da nossa visão e do nosso entendimento das engrenagens do mundo e do nosso senso de pertencimento cultural ou nacional decorrem do rol de histórias e tramas que compõem os folclores populares e as mitologias de cada povo.

Portanto, o que dizemos, como dizemos e por que dizemos é grande parte do que somos. E, como a boa fábula que é, Kubo e as Cordas Mágicas também tem sua moral: cabe a nós decidir como contar e perpetuar as nossas próprias histórias, cabe a nós decidir qual narrativa de futuro vamos construir.

É emocionante, por fim, ver como Travis Knight utiliza a minuciosa técnica do stop-motion para criar seu cinema quadro a quadro. Talvez seja por isso que Kubo e as Cordas Mágicas nos conquista e prende nosso olhar: é um filme que nos encanta duplamente, artística e tecnicamente, ao nos inspirar vinte e quatro frames por segundo.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! (Richard Linklater, 2016)

"EVERYBODY WANTS SOME!!":

 

NOTA: 7 / Renato Furtado

Se existe uma coisa que o cineasta Richard Linklater (diretor responsável pela trilogia de Jesse e Celine em “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite” e também pelo sucesso de crítica “Boyhood”) sabe fazer bem é estabelecer o ambiente de seus filmes. Se ele é considerado tão talentoso quanto é, grande parte desse crédito é decorrente dessa habilidade que Linklater possui de atrair e prender o espectador dentro dos mundos que cria. Em “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!”, seu novo filme, não é diferente.

Narrando a história de um time de beisebol de uma faculdade estadounidense, acompanhamos a trajetória do calouro Jake (Blake Jenner) e de seus companheiros de time durante o final de semana antes do início das aulas no ensino superior. Ou seja, basicamente temos um filme sobre jovens adultos entre 18 e 25 anos, aproximadamente, que passam o tempo inteiro fazendo nada a não ser festejar, procrastinar e caçar garotas.

Através de sua grande paixão pelos personagens e cenários que cria, o diretor conduz sua trama com muito humor e detalhamento. É por causa do trabalho minucioso de Linklater – ele sabe criar personagens e diálogos cativantes e sabe dirigir com excelência todo seu corpo de atores e, aqui, todos os intérpretes demonstram um alto nível performático -, pela fantástica trilha sonora composta por grandes e famosas canções dos anos 80, pelo fantástico trabalho de figurinos e de design de produção assinados, respectivamente, por Kari Perkins e Bruce Curtis que “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!” consegue superar os problemas de sua estrutura episódica.

Ainda que a falta de uma linha narrativa clara e precisa (um início, meio e fim colocados dentro de uma trama tradicional) seja um dos grandes charmes tanto desta comédia quanto de seu parente espiritual de duas décadas atrás, “Jovens, Loucos e Rebeldes”, os episódios que compõem a trama de Linklater funcionam mais quando o diretor está em seu modo estilo filosófico e teatral (o estudo das relações entre os personagens através de longas e saborosas conversas firmemente baseadas em pequenas e divertidas sabedorias de vida) do que quando ele está em seu modo cômico.

É importante notar que isso não significa dizer que Linklater não sabe divertir. Basta assistir “Escola de Rock” novamente para saber que o cineasta tem domínio pleno da comédia. O ponto é que, além de nem sempre ser possível fazer um filme tão vivo e divertido quanto aquele estrelado por Jack Black, o humor de Richard Linklater parece funcionar melhor justamente quando o diretor se beneficia de uma linha narrativa de episódios encadeados, uma trama tradicional cuja premissa apresenta um início, um meio e um fim.

Os diálogos de Charlie Willoughby, por exemplo, (ótimo personagem interpretado por Wyatt Russel e que lembra muito o personagem de Matthew McCounaghey em “Jovens, Loucos e Rebeldes”) e as charmosas interações entre Jake e Beverly (Zoey Deutch) lembram alguns dos momentos mais suaves e bem resolvidos de filmes como “Boyhood”, os diálogos, lugar onde ambos os filmes (e também a trilogia mencionada acima) funcionam perfeitamente bem.

Richard Linklater produziu “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!” de maneira convicta, exatamente da maneira como sempre conduziu suas produções. Afinal, ele é um diretor de extremo talento, sabe quais emoções quer alcançar e sabe quais efeitos precisa criar para isso. Ele sucede em recriar uma das atrevidas comédias dos anos 80 aliando seu afiado senso cinematográfico a ela. O fato é que, no entanto, esta comédia funciona mais quando não tenta ser uma comédia; funciona onde os jovens não são tão loucos ou rebeldes e sim nos momentos em que conversam e dialogam de maneira simples, real e humana, local exato onde Linklater demonstra todo seu brilho.

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