amanda

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

O conceito de justiça é, provavelmente, um dos conceitos mais complexos do mundo ocidental. Sua definição é atravessada por diversos fatores e circunstâncias, dificultando sua construção e na sociedade contemporânea em que vivemos, informatizada e midiática, a justiça alterou-se ainda mais até o ponto em que se tornou um produto subjetivo, um produto narrativo.

É partindo deste ponto que os diretores Rod Blackhurst e Brian McGinn encaram o célebre caso de Amanda Knox, uma intercambista estadunidense que se viu em meio a um caso de assassinato em 2007, quando morava na cidade de Perugia, na Itália, e montam um dispositivo documental que desafia todas as verdades.

Através de entrevistas diretas com quatro dos personagens mais importantes envolvidos no caso (a própria Amanda Knox, o seu namorado à época, Rafaelle Sollecito, o investigador Giuliano Mignini e o jornalista Nick Pisa), que recontam suas versões encarando a câmera posicionada à sua frente, “Amanda Knox” coloca o espectador na posição mais privilegiada e deixa com que o público decida no que prefere acreditar.

A partir do momento em que os personagens da narrativa olham o espectador (representado pela câmera) nos olhos, é como se eles estivessem relembrando e reconstituindo o caso e seus sentimentos sobre os acontecimentos de maneira objetiva, sem intermediários ou outros dispositivos que quebrem a comunicação entre depoimento e ouvinte.

Esta técnica – anteriormente utilizada no excelente “O Impostor”, de 2012, ainda que de maneira um pouco distinta – permite que Blackhurst e McGinn tenham a oportunidade de criar muito mais do que um documentário que remonta um célebre caso de polícia ou que serve como registro do mesmo; permite, portanto, que eles desenvolvam uma narrativa sobre narrativas – e é uma pena que eles não caminhem nessa direção por mais tempo.

Quando o documentário serve como reconstituição, é um filme comum, um produto de qualidade, mas que poderia muito bem estar presenta na grade de programação de um canal de televisão especializado em programas policiais e investigativos. Por outro lado, quando a equipe de documentaristas se aproveita das oportunidades mencionadas anteriormente, “Amanda Knox” demonstra traços de uma grande obra.

Ao lançar um olhar aprofundado sobre como a mídia (representada aqui pelo jornalista Nick Pisa, um dos principais repórteres do caso e um personagem extremamente interessante) influenciou os rumos do caso e como os jornais e as publicações online criaram um hábito de monstro que obrigaram Amanda a vestir, o documentário aponta, ainda que não de maneira inédita, qual é o verdadeiro objetivo midiático.

A ideia de que desvelar a verdade é a finalidade última do jornalismo não passa de uma falácia – promovida, evidentemente, pelo próprio jornalismo midiático e sensacionalista. Na realidade, o alvo é o oposto. Pisa, à certa altura da projeção, reconhece isso: qualquer coisa poderia acontecer, até mesmo a verdade sobre a noite do assassinato poderia ser revelada, que nada mudaria; a personagem mais interessante sempre seria Amanda.

Pensar neste fato é natural quando se compreende a mídia como mais um serviço de entretenimento – coisa na qual se transformou nos últimos anos. No entanto, de maneira hipócrita, a mídia nunca se vende como entretenimento, sempre como informação. É assim que uma moça, cuja vida e cuja subjetividade foram expostas e aviltadas pelos noticiários e pelos jornalistas, foi invariavelmente petrificada como foco principal da narrativa promovida pela imprensa.

Não é à toa que a mídia é chamada de quarto poder – ao lado dos três poderes republicanos consolidados constitucionalmente. Para os diretores, portanto, independe se Amanda é culpada ou não: em “Amanda Knox”, o importante é pensar e criticar narrativas através da própria narrativa – e a escolha mais sábia dos dois cineastas, sem sombra de dúvidas, foi manter Amanda como a personagem principal e não o caso em si.

No fim das contas, o único equívoco a ser lamentado é a curta duração do filme – 92 minutos -, que não permite que essa essencial e importante meta-narrativa se desenvolva, por completo, em um documentário formidável sobre o injusto e sensacionalista tribunal da justiça midiática.

Anúncios