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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Falar sobre “Festa da Salsicha” não é tarefa fácil – e ainda que essa seja uma frase aparentemente preguiçosa para iniciar qualquer texto que seja, ela é pertinente. Isso se dá pelo simples fato de que as emoções que esse filme causa são as mais confusas possíveis porque essa uma hora e meia de “Festa da Salsicha” é, definitivamente, a uma hora e meia mais insana – e uma das mais divertidas – dos últimos tempos do cinema mundial.

Os acontecimentos de “Festa da Salsicha” são inacreditáveis; spoilers poderiam ser destilados a fio nas próximas palavras que não faria a menor diferença: é difícil acreditar nas sequências chocantes e enlouquecidas que retratam as aventuras da salsicha Frank, do pão de cachorro-quente Brenda e de seus outros amigos alimentícios em busca do paraíso – leia-se as casas dos clientes do supermercado, a morada “terrena” dos produtos.

É muito bom, portanto, que as surpresas e choques preparados pelos diretores Greg Tiernan e Conrad Vernon não sejam perturbadoras por serem perturbadoras, não sejam simplesmente gratuitas. É preciso dizer: “Festa da Salsicha” é tão politicamente incorreto quanto poderia ser, mas faz total sentido que o filme seja assim, uma vez que o roteiro, o conceito, a direção e a estética pedem exatamente isso.

Diferente da maioria das películas, “Festa da Salsicha” apela, mas não de maneira inócua; choca, mas não de maneira ridícula. Quase todas as piadas são em prol das críticas tecidas à condição social, política e cultural geral vigente em nossa sociedade ocidental. Não há tabu ou problemática que “Festa da Salsicha” não ataque com firmeza e irreverência.

O método sobre esta loucura é todo regido, evidentemente, pelos ótimos diretores, que criam uma animação de exuberância técnica que passeia confortavelmente por diversos gêneros cinematográficos. Imprimindo referências cinematográficas e à cultura pop e empregando texturas distintas (o retrato de um evento passado, por exemplo, é feito em animação 2D), “Festa da Salsicha” é um exagero fantástico e de altíssimo nível sendo, ao mesmo tempo, um filme de guerra, um drama, um romance, um terror, um suspense e, obviamente, uma comédia.

A escrita de todo esse caos só poderia ter vindo das mentes de Seth Rogen e Evan Goldberg, provavelmente os cineastas mais polêmicos de Hollywood. Após lançarem um filme extremamente conturbado em um momento político delicado (“A Entrevista”, longa que retrata a missão de dois jornalistas que pretendem assassinar o ditador da Coreia do Norte), agora a dupla (ao lado da mente insana de Jonah Hill, também dublador do filme) lança esse filme, uma verdadeira alegoria do mundo ocidental.

Direitos das minorias, conflitos políticos entre árabes e judeus, preconceito, fundamentalismo religioso, autoritarismo. Qualquer temática espinhosa, qualquer tema que precise ser tratado é abordado sempre através de uma piada, de uma gag ou de uma sequência engenhosa que coloca o espectador na ponta da cadeira de tanto rir. É de se imaginar até que “Festa da Salsicha” é o resultado de um desafio auto-imposto: fazer a animação mais adulta possível.

Além de atingir essa meta, o longa também atinge um primor na seleção de dubladores e na direção do trabalho de dublagem. Na versão original participam do filme nomes famosos da comédia estadunidense como os já mencionados Rogen e Hill, além de Kristen Wiig, Bill Hader, Michael Cera, Paul Rudd e Salma Hayek. Sobra espaço até mesmo para um ator do quilate de Edward Norton realizar uma participação mais do que especial.

Do nosso lado, podemos dizer que o Brasil não fez feio na dublagem (como de costume, uma vez que o trabalho dos dubladores brasileiros é um dos mais respeitados do mundo). Adaptado pelo coletivo de humor Porta dos Fundos, o longa recebeu uma versão bem brasileira ao tornar as piadas mais acessíveis. Além da inclusão de memes, a “tradução” da comédia ficou muito elegante. Ainda, o trabalho de dublagem realizado pelos próprios comediantes do Porta também é fantástico. Todos participam do filme, compondo um elenco encabeçado por Guilherme Briggs, maior dublador brasileiro de todos os tempos.

Por fim, a repetição vale: é preciso ver “Festa da Salsicha” para crer. Definitivamente a animação menos recomendada para crianças da história do cinema mainstream é uma insanidade que faz rir bastante e que faz pensar um tanto também. Chocará, para o bem ou para o mal, toda a sua audiência e dividirá opiniões. Por outro lado, unirá as plateias do mundo em torno de um só resultado: a falta de palavras para descrever tamanha loucura.

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