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“The Rolling Stones faz coisas que o governo não é capaz de fazer”

No final da década de 60, os irmãos Maysles documentaram um dos shows mais desastrosos da carreira dos Stones: um concerto aberto em Altamont, que culminou em três mortes.

A banda não tinha – nem tem – um víeis revolucionário. Foi uma fatalidade, de fato, que nada tinha a ver com o caráter da contracultura. Para falar a verdade, The Rolling Stones sempre esteve ao lado da extrema comercialização, basta perceber que muitas pessoas usam blusas do grupo sem nem conhecer 10 músicas.

Quando assisti ao show da minha amada banda no Maracanã, durante a Olé Tour, realizada neste ano (2016), foi algo que nunca vi parecido em minha trajetória de idas a shows de gigantes do rock. Era o estádio todo pulando e rodando camisas no ar. Pensei: “puxa, imagina se os Stones, com toda essa energia e estádio lotado, quisessem fazer uma revolução. Uma pena eles serem tão despolitizados”.

Talvez, tenha me enganado um pouco. No novo filme da banda, “The Rolling Stones: Havana Moon”, dirigido pelo inglês Paul Dugdale, há uma forte comoção devido ao primeiro show de rock realizado em Cuba graças à reaproximação com os Estados Unidos. Keith Richards sabe do caráter histórico do evento e, no começo do filme, quando são realizadas quatro perguntas sobre Cuba e o show de Havana, especificamente, uma fala marca, de forma genial, a grandiosidade que os Stones representam:

“The Rolling Stones faz coisas que o governo não é capaz de fazer”

Richards está certo. Em um primeiro momento, vemos travellings de imagens de Che Guevara e menções a Fidel Castro pela cidade, Cadillacs circulando nas ruas, o baterista Charlie Watts comentando o fascínio pelos antigos prédios – bem desgastados – e, claro, a população que anseia pela volta do rock, desejando o proibido durante muito tempo.

Como no filme de Maysles, o show começa com Jumpin’ Jack Flash, mas há uma diferença crucial e muito interessante para entendermos o caráter político e histórico daquele show do dia 25 de março de 2016: Paul Dugdale foca na reação da plateia durante todo o longa.

Ao contrário da pobreza e do atraso que a grande mídia insiste em atribuir ao país, muitos usam celulares e câmeras. Mas, ainda assim, há muitas coisas atípicas. Assistir a um grande show de rock é tão importante para aquelas pessoas que uma mulher utiliza enormes binóculos para ver melhor apresentação – a experiência é muito mais importante do que guardar uma lembrança digital. Muitos dançam, muitos idosos compõem o público presente, Keith Richards, pisando com um tênis Nike no palco, deixa claro: o show business, típico do capitalismo, com um símbolo sendo vendido em blusas para pessoas que nem conhecem nossa obra musical, chegou ao país de vocês. E o guitarrista, saindo da simbologia, afirma com suas palavras:

“Obama disse: “- vocês têm os Stones vindo aí” durante o primeiro discurso da reabertura. Para mim, essa foi a abertura do show”.

Mesmo que a banda não seja engajada politicamente e socialmente, todos percebem como a música e o culto aos grandes ídolos marca, ainda mais, qualquer evento, tornando-o mais histórico ainda. Quando Gimme Shelter é tocada, a câmera, em slow motion, foca no rosto de um rapaz negro contrastando com o refletor; depois há um corte, trazendo uma criança loira ao quadro e, sequencialmente, há várias imagens de crianças se divertindo, certamente, no primeiro show de rock de suas vidas, proporcionado pelo novo momento político de Cuba. Há uma enorme pluralidade, um choque de diferenças, que, ao contrário do show de 1969, agora se harmonizam.

Talvez seja difícil para elas entender a tamanha importância daquele dia. Nem mesmo os adultos devem ter entendido. Mick Jagger, em um momento de intervalo entre as músicas, pergunta se aquelas pessoas sabem o que está acontecendo. Provavelmente, ainda é difícil lidar com o embate de tamanho símbolo comercial, misturando o pesado aparato do show business com um momento político que ninguém imaginava que chegaria, mas chegou, misturando imperialismo, comoção, novos tempos, com uma nostalgia das pérolas do rock que nunca se distanciam, totalmente, da política e da história. O show épico de Cuba representou um beijo entre as diferenças que não foi dado na década de 60, em Altamont. O pedido expresso em Gimme Shelter foi atendido! Agora há um novo abrigo para os Stones: Cuba!

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