"EVERYBODY WANTS SOME!!":

 

NOTA: 7 / Renato Furtado

Se existe uma coisa que o cineasta Richard Linklater (diretor responsável pela trilogia de Jesse e Celine em “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite” e também pelo sucesso de crítica “Boyhood”) sabe fazer bem é estabelecer o ambiente de seus filmes. Se ele é considerado tão talentoso quanto é, grande parte desse crédito é decorrente dessa habilidade que Linklater possui de atrair e prender o espectador dentro dos mundos que cria. Em “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!”, seu novo filme, não é diferente.

Narrando a história de um time de beisebol de uma faculdade estadounidense, acompanhamos a trajetória do calouro Jake (Blake Jenner) e de seus companheiros de time durante o final de semana antes do início das aulas no ensino superior. Ou seja, basicamente temos um filme sobre jovens adultos entre 18 e 25 anos, aproximadamente, que passam o tempo inteiro fazendo nada a não ser festejar, procrastinar e caçar garotas.

Através de sua grande paixão pelos personagens e cenários que cria, o diretor conduz sua trama com muito humor e detalhamento. É por causa do trabalho minucioso de Linklater – ele sabe criar personagens e diálogos cativantes e sabe dirigir com excelência todo seu corpo de atores e, aqui, todos os intérpretes demonstram um alto nível performático -, pela fantástica trilha sonora composta por grandes e famosas canções dos anos 80, pelo fantástico trabalho de figurinos e de design de produção assinados, respectivamente, por Kari Perkins e Bruce Curtis que “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!” consegue superar os problemas de sua estrutura episódica.

Ainda que a falta de uma linha narrativa clara e precisa (um início, meio e fim colocados dentro de uma trama tradicional) seja um dos grandes charmes tanto desta comédia quanto de seu parente espiritual de duas décadas atrás, “Jovens, Loucos e Rebeldes”, os episódios que compõem a trama de Linklater funcionam mais quando o diretor está em seu modo estilo filosófico e teatral (o estudo das relações entre os personagens através de longas e saborosas conversas firmemente baseadas em pequenas e divertidas sabedorias de vida) do que quando ele está em seu modo cômico.

É importante notar que isso não significa dizer que Linklater não sabe divertir. Basta assistir “Escola de Rock” novamente para saber que o cineasta tem domínio pleno da comédia. O ponto é que, além de nem sempre ser possível fazer um filme tão vivo e divertido quanto aquele estrelado por Jack Black, o humor de Richard Linklater parece funcionar melhor justamente quando o diretor se beneficia de uma linha narrativa de episódios encadeados, uma trama tradicional cuja premissa apresenta um início, um meio e um fim.

Os diálogos de Charlie Willoughby, por exemplo, (ótimo personagem interpretado por Wyatt Russel e que lembra muito o personagem de Matthew McCounaghey em “Jovens, Loucos e Rebeldes”) e as charmosas interações entre Jake e Beverly (Zoey Deutch) lembram alguns dos momentos mais suaves e bem resolvidos de filmes como “Boyhood”, os diálogos, lugar onde ambos os filmes (e também a trilogia mencionada acima) funcionam perfeitamente bem.

Richard Linklater produziu “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!” de maneira convicta, exatamente da maneira como sempre conduziu suas produções. Afinal, ele é um diretor de extremo talento, sabe quais emoções quer alcançar e sabe quais efeitos precisa criar para isso. Ele sucede em recriar uma das atrevidas comédias dos anos 80 aliando seu afiado senso cinematográfico a ela. O fato é que, no entanto, esta comédia funciona mais quando não tenta ser uma comédia; funciona onde os jovens não são tão loucos ou rebeldes e sim nos momentos em que conversam e dialogam de maneira simples, real e humana, local exato onde Linklater demonstra todo seu brilho.

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