kubo

NOTA: 8 / Renato Furtado

Quando Kubo, logo no início de Kubo e as Cordas Mágicas, nos diz para não piscar, para não perder nenhum detalhe e para não esquecer nenhuma parte da história que nos conta, essa pode parecer uma tática preguiçosa. Pode soar, inclusive, indecoroso que um filme nos peça nossa atenção ao invés de conquistá-la. Contudo, isso não passa de um floreio: afinal, mal sabemos que não vamos conseguir desviar o olhar da tela.

Na encruzilhada entre a sensibilidade poética e folclórica do Japão e a estética épica dos filmes de aventura dos Estados Unidos, entre influências orientais e “disneynianas”, o cineasta Travis Knight nos entrega aquele que pode ser o longa de animação mais surpreendente e afetivo de 2016: a história de Kubo, um exímio contador de histórias que conhecerá o verdadeiro poder das palavras.

Todas as tardes, após o calor do meio-dia, o jovem, com o seu tapa-olho escondido pela grande franja que cai sobre sua testa, toca um acorde em seu shamisen – guitarra tradicional japonesa – parando a cidade: todos sabem que é hora de ouvir a lenda do samurai Hanzo, um guerreiro em busca de uma armadura mágica.

Mas, assim que o sol começa a descer, Kubo interrompe seu relato e corre para casa, deixando os espectadores órfãos de um final. É que ele não pode ficar longe da mãe e de casa à noite: sob o céu noturno, o jovem corre o risco de ter seu outro olho roubado por seu avô, um poderoso feiticeiro. Não demora para o jovem narrador perceber que não pode mais fugir – e, a partir daqui, sentimos um déja-vu.

A trama do longa é uma jornada de herói clássica – Kubo recebe, inclusive, a ajuda de dois personagens cruciais para esse modelo de narrativa, uma mentora e um protetor (a macaca e o besouro samurai). Em Kubo e as Cordas Mágicas, pouco importa o não ineditismo de suas reviravoltas: o que faz o filme ser grande é a condução de Knight, onde o que importa é o “como” e o “por que” e não o “que” é narrado.

A singela direção de fotografia, que explora uma paleta de cores vibrante, e a criatividade ímpar de Knight para construir ótimas sequências cinematográficas dão ao filme beleza e vivacidade: sentimos essas qualidades nas divertidas batalhas de origamis e na cena em que as lanternas flutuam rio abaixo, em direção ao sol que se põe entre as árvores. São esses os aspectos que permitem que Knight componha uma obra sobre o ato de narrar.

É natural que Kubo prefira as cordas do seu shamisen ao fio da espada. Ele não é um guerreiro; é um contador de histórias. Os humanos são seres que vivem de narrativas. Grande parte da nossa visão e do nosso entendimento das engrenagens do mundo e do nosso senso de pertencimento cultural ou nacional decorrem do rol de histórias e tramas que compõem os folclores populares e as mitologias de cada povo.

Portanto, o que dizemos, como dizemos e por que dizemos é grande parte do que somos. E, como a boa fábula que é, Kubo e as Cordas Mágicas também tem sua moral: cabe a nós decidir como contar e perpetuar as nossas próprias histórias, cabe a nós decidir qual narrativa de futuro vamos construir.

É emocionante, por fim, ver como Travis Knight utiliza a minuciosa técnica do stop-motion para criar seu cinema quadro a quadro. Talvez seja por isso que Kubo e as Cordas Mágicas nos conquista e prende nosso olhar: é um filme que nos encanta duplamente, artística e tecnicamente, ao nos inspirar vinte e quatro frames por segundo.

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