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NOTA: 6 / Renato Furtado*

A Dra. Tong, derrotada e deprimida, à beira do desespero, desce as escadas do hospital, tentando deixar tudo para trás. Mas o peso do mundo está em suas costas e quando ela atinge a metade da escadaria, seu corpo exausto desaba sobre os degraus. Dramaticamente, ela se levanta, o olhar indicando uma reviravolta: ela não vai desistir de tentar salvar seus pacientes, apesar dos erros que cometeu. Intensidade é a palavra-chave de “Três”, novo filme do mestre do cinema de ação chinês, Johnnie To.

No auge de seus 61 anos de idade, o cineasta demonstra, mais uma vez, que sua energia é igual a de um estreante na direção. To costura uma agitada trama médica/policial em que uma neurocirurgiã se vê no meio da linha de fogo entre um bandido, que está com uma bala alojada na cabeça e precisa ser operado às pressas e as forças da polícia, que permanecem na ala médica para garantir que o criminoso não acorde.

Construído através da rota de colisão de todas as forças em jogo, “Três” é uma bomba-relógio em duas instâncias: em termos de história e em termos narrativos. To imprime um senso de urgência tão elétrico que faz com que até mesmo as cenas dramáticas pareçam ser sequências de ação. A todo momento, sentimos que toda e qualquer interação dramática desembocará em um tiroteio inevitável. E, de fato, é tudo tão divertido que torcemos para que isso aconteça.

“Três”transborda um certo “desespero” que é entretenimento puro. Por meio da condução frenética de To – que frequentemente nos coloca dentro da ação, até mesmo dentro de um corpo no meio de um processo cirúrgico -, o insano trabalho de câmera segura o espectador pelos ombros e o arrasta para frente, para trás e para os lados, passeando pelos corredores, elevadores, salas cirúrgicas, trocas de olhares silenciosas e discursos filosóficos do inteligente bandido que incrementam o nível de tensão e suspense.

No entanto, o roteiro, por sua vez, deixa a desejar em alguns pontos, sabotando o longa. Escrito a seis mãos, o texto apresenta diversas subtramas dramáticas que acabam se assemelhando a pontas soltas, uma vez que a curta duração do filme não permite que To desenvolva as histórias de cada paciente. Além disso, as cenas cômicas  – o policial gordinho é um alívio cômico que não funciona – não são boas.

É por isso que frequentemente desejamos voltar logo à trama principal – que, infelizmente, acaba sofrendo com o seu desfecho, uma sequência final estranha, estabanada e mal resolvida de um tiroteio em slow-motion.

No fim das contas, “Três” parece ser uma locomotiva sem freio. Na maior parte do tempo, o movimento constantemente insano e acelerado do comboio cria uma aventura empolgante e divertida, ainda que um tanto quanto trepidante. Do contrário, quando o condutor leva a intensidade ao seu nível máximo, esquece que menos, às vezes, é mais.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio 2016

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