divas

NOTA: 7,5 / Renato Furtado*

Sentada em um bar, conversando com a câmera, Rogéria mal percebe a aproximação da fã. Nervosa, a “intrusa” invade o campo do cinema, de repente, para declarar toda sua admiração e gratidão pelo trabalho da performer e cantora. “Divinas Divas”, primeiro filme de Leandra Leal, é recheado de momentos como esse: emocionantes, divertidos e verdadeiros.

Utilizando a própria voz, a diretora traz para si o papel de narradora e de guia, costurando um tecido narrativo riquíssimo composto pelas histórias das oito divas que retrata; cenas dos ensaios que as artistas realizam para se preparar para o seu grande espetáculo de despedida; um registro do show em si; e imagens de arquivos e memórias tanto das divas quanto da própria Leandra Leal acerca da história cultural do Rio de Janeiro e do Teatro Rival, palco hoje comandado pela própria diretora.

Aliás, sem mencionar o Rival e o cenário cultural da cidade carioca, aliás, não haveria “Divinas Divas”. A atuação dessas oito travestis e de outras tantas célebres artistas modificaram por completo a natureza dos espetáculos teatrais. Portanto, é apenas natural que a paisagem das lembranças da diretora se misture à paisagem das lembranças contadas pelas oito: esta é uma cinebiografia sobre essas oito mulheres e sua arte, sobre memórias, sobre um Rio de Janeiro que deixou de ser o que era.

Transbordando afeto e paixão ao registrar a grande coragem das oito, o documentário de Leal é quase um antídoto à violência e à crueldade da forte onda de conservadorismo e de ódio que, infelizmente, tomou conta da sociedade brasileira nos últimos tempos. Ainda que a cineasta não entre em um âmbito político, o retrato que realiza de suas personagens é bastante político em si; afinal, ser quem se é, derrotando ou pelo menos sobrevivendo às pressões e estruturas sociais, também é um ato político.

Independe se as divas são homens ou mulheres: Leal, sensivelmente, abre espaço para que elas se mostrem, antes de mais nada, como os seres humanos maravilhosos e as artistas incríveis que são em todas as suas qualidades, falhas, memórias, paixões e sonhos. “Divinas Divas” é um conto que nos seduz e nos dá uma pontada de esperança: é difícil, ao final da projeção, não acreditar que essas artistas são verdadeiramente divinas – e é mais difícil ainda não se tornar fã da trajetória de cada uma delas.

É verdade que a estrutura de entrevista-ensaio-espetáculo montado acaba tornando a narrativa um tanto quanto repetitiva; contudo, o retrato é tão delicioso de se ouvir e de se ver que a duração mais alongada do filme – que seria ainda mais potente se fosse mais curto e incisivo – é um acidente de percurso mais do que perdoável.

Porque, no fim das contas, importa o fato de que este é um filme para sorrir, rir, se inspirar e se emocionar do início ao fim. Seguro de si mesmo, como as suas divas são, “Divinas Divas” é uma verdadeira festa, uma verdadeira celebração cheia de glitter, verdade, humanidade, arte e um quê de divino; é afeto puro em forma de longa-metragem.

 

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

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