lo

NOTA: 7 / Renato Furtado*

Chegará o momento em que as máquinas e a internet sonharão? É possível desenvolver uma máquina que prevê quando uma pessoa está prestes a se apaixonar pela outra? Nossos cérebros se tornarão tão conectados que não precisaremos mais conversar uns com os outros, bastará “ler” mentes? No futuro, a ideia de que os seres humanos não vão mais precisar do contato entre si será um conceito aceitável? Provocador como sempre, Werner Herzog está de volta em “Eis os Delírios do Mundo Conectado”.

Dividido em 10 capítulos, o novo documentário do cineasta alemão é um verdadeiro panorama dos nossos tempos e de nossa relação com a tecnologia: as origens da internet; o lado negro da conectividade; a possibilidade de vida em Marte; o desenvolvimento de uma consciência semi-humana por parte da inteligência artificial; um cataclismo mundial causado pelas leis do universo e do comportamento dos raios solares – que derrubariam a eletricidade e a internet; a responsabilidade pelos atos em uma era do anonimato, a confiança, a moral; e, enfim, o futuro. Aqui, e como de costume, nada escapa ao olhar de Herzog.

Por meio de sua característica narração poética – sua voz sempre retumbante, profunda, rascante, assombrosa -, o cineasta cria mais uma obra pertinente à questão que ele coloca em quase todos os seus filmes: quais são os limites do ser humano quando um indivíduo, ou um grupo de indivíduos, encara uma situação ou uma condição extrema?

Herzog raramente nos dá respostas. Na verdade, seu cinema é feito para incomodar, tirar do lugar comum ao nos apresentar as fronteiras e a loucura do ser humano. Herzog nos larga à beira do abismo e nos força a olhar para a imensa escuridão que se põe à nossa frente; infelizmente, em “Eis os Delírios”, a abordagem do alemão é tão superficial quanto é profundo o abismo da internet e da conectividade no mundo contemporâneo.

É um problema de recorte. Tanto na ficção ou no documentário, Herzog sempre foi um mestre da seleção: habilmente, ele sempre encontrou casos estritamente específicos para retratar um aspecto universal da condição humana. No entanto, a narrativa panorâmica de “Eis os Delírios” não impulsiona o estilo de Herzog. O cineasta acumula entrevistas e testemunhos acerca de uma coletânea de temas sem se aprofundar, de fato, em nenhuma problemática particular; a força de seu cinema nunca residiu em uma narrativa tangencial.

Por isso, “Eis os Delírios do Mundo Conectado” demora a engrenar. É só quando Herzog deixa a fundamentação histórica de lado, na metade final, e parte para a análise da inteligência artificial, que o documentário ganha uma certa coesão. Nos últimos capítulos, é possível ver uma unidade de pensamento e de argumentação que os une – o que, coincidentemente ou não, instiga Herzog a entrar em seu modo questionador, formulando perguntas perturbadoras, poéticas e pertinentes.

Apesar de tudo, o documentário traz, ainda, personagens excêntricos e interações interessantes criadas por Herzog – como o hacker e a mãe que perdeu sua filha e acredita que a internet é uma verdadeira cria das trevas. No fim das contas, Herzog continua conduzindo as múltiplas vozes de seus entrevistados como os diversos instrumentos de uma orquestra.

Justamente, fica a sensação de que se cada capítulo de “Eis os Delírios” fosse um filme em si, com tempo suficiente de aprofundamento em cada temática trazida à tona, teríamos uma série fantástica sobre a conectividade. Apressado e curto demais para o próprio bem, “Eis os Delírios do Mundo Conectado”, ainda assim, é mais uma demonstração da habilidade que Herzog possui de nos tirar da nossa zona de conforto.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

Anúncios