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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

A um quilômetro e meio de distância de sua mira, três melões estão equilibrados em estacas, no topo das cercas que delimitam as terras da fazenda de um de seus clientes. Lá, em uma calma tarde, Christian Wolff se estica sobre o gramado e se prepara para treinar sua pontaria. Os donos da casa, um casal de trabalhadores simples, mal consegue acreditar que o principal hobby do contador local é atirar com um rifle de precisão. Então, quando ele acerta os alvos, a surpresa dos dois é maior ainda. “O Contador” também é assim: surpreendente – ainda nem sempre positivamente.

Parte comédia, parte drama, parte thriller econômico e parte filme de super-herói, o novo filme de Gavin O’Connor – responsável pelo ótimo “Guerreiro” – é um filme que sofre com mudanças muito bruscas de gênero. O roteiro, que quase nunca justifica esse entrelaçamento de gêneros, é um problema para o tipo de diretor que é Gavin O’Connor.

Especialista em tramas menores, mais intimistas e em dramas familiares e/ou esportivos, é visível o conforto que O’Connor sente ao conduzir as seções mais dramáticas da trama, espaço onde consegue fazer fluir as emoções e os sentimentos de seus personagens ao lançar um olhar aprofundado para as relações entre cada um.

É por isso que quando O’Connor consegue fazer com que a trama de “O Contador” se conforme em ser um drama de um homem portador de autismo que precisa encontrar o seu lugar na sociedade, vencendo os preconceitos, o filme realmente triunfa. A cena final, por exemplo, é de uma sensibilidade especial; O’Connor é especialista em arrancar um sorriso melancólico e agridoce de sua plateia; sua direção lembra os filmes mais otimistas da “escola” da Nova Hollywood, nos anos 70.

Através de sua competência, O’Connor consegue salvar “O Contador” ao relaxar as amarras da trama e afrouxar a seriedade proposta pela escrita de Bill Dubuque – que praticamente sabota a obra. No fim das contas, o filme, que nem sempre é tão inteligente quanto gostaria de ser em suas reviravoltas, entretém

Apoiado por boas interpretações – principalmente da parte de Ben Affleck, que aqui compõe um papel sensível e interessante, conquistando o espectador com sua tão criticada inexpressividade e de Jon Bernthal, que é sempre divertido e ameaçador -, “O Contador” é entretenimento puro – uma boa e velha diversão cinematográfica.

 

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