chris

NOTA: 7 / Renato Furtado*
Reunida na sala, uma família se aquece com a luz azulada e fria que vem da lareira no centro da sala, alimentado não pelo calor da lenha a queimar, mas pelo calor de um bombardeamento incansável de imagens atrás de imagens. Como diria David Foster Wallace, a tv é uma lareira – e o seu fogo pode ser tão perigoso quanto o das chamas que conhecemos. “Christine”, novo filme de Antonio Campos, tem plena noção disso.

Ambientado na década de 1970 (ótima direção de arte e ótimos figurinos), esta é a história real de uma repórter que, obrigada a se render ao sensacionalismo, perde seu referencial, seu chão. Christine Chubbuck, a jornalista, é vivida por Rebecca Hall, em uma fantástica interpretação, já cotada ao Oscar de Melhor Atriz; a melhor performance de sua carreira, que traz várias nuances e detalhes ao retratar a depressão e a paranoia de sua personagem.

No constante combate entre a informação e o entretenimento, o jornalismo sofre nas mãos das engrenagens da sociedade do espetáculo. “Se sai sangue, vira manchete”, dita o editor do telejornal: essa é a ideia. Já sabemos o que a banalização da violência faz com os telespectadores; o grande ponto aqui é que Campos vira as câmeras para os bastidores – e é algo feio de se ver.

A montagem quase teatral, que respeita as pausas e o tempo de cada cena traz um incômodo: ver a luta de Christine contra a indústria e contra seus próprios demônios é como assistir à luta entre Davi e Golias. A tensão gerada por um combate trágico é que vemos e torcemos por alguém que não pode escapar de seu destino.

É uma verdadeira ditadura do entretenimento. O que vende é o sofrimento – muitas vezes de quem é retratado e de quem produz o retrato. Sem fazer de seu próprio filme um espetáculo, Campos filma essa jornada pessoal (ainda que foque menos que o necessário na deterioração da psique de Christine), esse turbilhão de sentimentos de maneira elegante e objetiva, e abre duas janelas para o espectador.

A primeira é para as doenças da mente; a segunda da diretamente para o caos que é tratar o caos de uma maneira espetacular. As engrenagens do que diverte são movidas, muitas vezes, a sangue e tinta. E ainda que seu filme acabe se prolongando um pouco além da conta, perdendo um pouco de sua potência, Campos nos propõe um debate cuja conclusão é dolorosa: na guerra do espetáculo do “show do eu”, os derrotados somos nós mesmos.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

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