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NOTA: 7 / Nathalia Barbosa

Seguindo o sucesso de Garota Exemplar, “A Garota do Trem”, livro de Paula Hawkins adaptado para o cinema por Tate Taylor, aborda a mesma temática, mas de uma forma diferente: há uma trama de relacionamentos abusivos, mas as mulheres do filme quase não têm potência de ação.

Tudo se desenrola a partir de uma narrativa em voz off, materializando os pensamentos de Rachel Watson, interpretada por Emily Blunt: uma mulher observadora que anda de trem, pensando sobre a vida das pessoas que ocupam casas próximas à linha férrea. Em suas viagens, há sua casa preferida, com o endereço Rua Blenheim Road, 15, ao lado de seu antigo lar. Imaginando uma vida ideal e perfeita do casal que vive em sua casa favorita, ela compara com sua antiga realidade no imóvel ao lado, quando ainda era casada com Tom (Justin Theroux).

A linha de conflito se desenvolve quando Rachel retoma memórias confusas de seu casamento arruinado por desordens relacionadas à sua incapacidade de ter filhos. Rachel não conhece, pessoalmente, a mulher que julga ter a vida perfeita, Megan Hipwell (Haley Bennett), mas, atrelada à sua trama, há a personalidade rude desta e que recusa o apego a crianças, negando o papel da sociedade que impõe a obrigação de ser mãe.

Nesse contexto de julgamentos e o que poderia ser, na imaginação de Rachel em suas viagens, há o valor de veracidade das memórias e conduta de Rachel colocado à prova por conta de seu vício em álcool. O drama da moça recém-separada e que se culpa frequentemente aumenta quando Megan desaparece e ela é vista como a principal suspeita.

É a partir desse momento que o suspense sedutor do longa realmente se desenvolve. Porém, seria realmente instigante se a narrativa não fosse tão óbvia por conta de uma direção nada criativa, que, praticamente, encaixa as sequências de fatos em uma estrutura que mostra ao espectador que o ocorrido nunca está próximo da investigação da polícia; ela mesma minimiza a curiosidade por esclarecer e desfazer, antes do tempo, suspeitas relacionadas a outros personagens.

Além disso, usando a atmosfera comum de tons frios, altamente puxados para o azul como no longa de David Fincher, no qual se inspira, o revezamento de planos é totalmente óbvio, colocando sempre quem está falando em evidência no primeiro plano e, muitas vezes, próximo ao centro, enquanto quem está na escuta é desfocado no segundo plano.

Outro aspecto que desagrada é que, apesar da ampla movimentação de lateralidade da câmera – provavelmente, fazendo referência ao aspecto de visão de um trem em deslocamento – não há uma criatividade do enquadramento, não tendo, nem mesmo, uma boa alternância entre afastamento e close ora para provocar a sensação de impossibilidade de resposta por parte do espectador, ora para explorar provas e cenas que poderiam ser curiosas, mas que passam sem maestria por não serem bem aproveitadas e servirem apenas para ligar sequências aparentemente sem muita semelhança, evitando qualquer quebra não didática da história.

O tema central, trazendo relacionamento abusivo e sororidade entre mulheres é, realmente, super interessante. O filme também possui cenas belíssimas e comoventes, mas, por pecar altamente na falta de inovação da direção e da fotografia, consequentemente, sem êxito para se destacar de “Garota Exemplar”, a impressão que dá é que nós já sabíamos, desde o começo, todo o filme, mas o assistimos apenas para confirmarmos o que estávamos pensando, já que a estrutura de suspense que o filme propõe é tão óbvia que mina o esforço do público em desvendar o mistério e descobrir quem é, verdadeiramente, a Garota do Trem.

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