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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Will (Logan Marshall Green), sentado em um dos degraus de sua antiga casa, mal ouve o que Claire tem a dizer. Tudo o que ela fala se perde no ar porque Will não consegue tirar os olhos de Pruitt (John Carrol Lynch), um misterioso desconhecido que acaba de adentrar a casa. Aparentemente, o grande homem é dócil, mas Will sabe que essa não é a verdade. “O Convite”, assim, nos impõe constantemente o limiar entre a realidade e a loucura.

A dúvida, a angústia e a incerteza são visíveis nos olhos de Will. Retornar à casa onde viveu com sua ex-esposa e com seu filho não é tarefa fácil para ninguém. Como que entorpecido, seu andar pesado o trai sempre que procura assegurar seus amigos de que está bem. Talvez seja por isso que ele admita que não sabe fingir, que não sabe atuar: Will sabe que não há escapatória – nem de si mesmo, nem de seu passado e nem mesmo daquela noite.

De maneira elegante (a composição visual de cada cena sublinha a ameaça da reunião de velhos amigos), Kusama cria um thriller delicado e agoniante. Superficialmente, “O Convite” é um suspense inteligente que faz emanar medo e perigo de cada canto da casa sob uma fria e inquietante iluminação amarelada.

Por outro lado, todo e qualquer diálogo e interação parece possuir algo em suas entrelinhas. É por isso que em um nível subliminar, “O Convite” é uma exploração sensível e devastadora sobre o peso das memórias e das dores do passado e o horror do luto. Por baixo de sua superfície aterrorizante, há um abismo ainda mais profundo, ainda mais grave e doloroso, cujas trevas marcam cada passo e cada ação de Will.

Assistir à jornada do protagonista, que é obrigado a vagar pelo passado e pelo presente por meio de uma montagem precisa, é uma experiência tão tormentosa quanto a própria caminhada de Will. Construindo e destruindo certezas, Kusama tem completo domínio de sua narrativa e nos obriga a pegar carona em uma viagem que só pode terminar mal.

Entre pratos excêntricos, bebidas caras, ações bizarras, jogos perturbadores, sentimentos velados, não-ditos e mágoas a flor da pele, “O Convite” é um drama cujo horror nasce menos da catástrofe anunciada e mais do terror dos demônios interiores de cada um.

 

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