cinema

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Debaixo de uma forte chuva, as lágrimas escorrem pelo rosto de Zulmira (Fernanda Montenegro) e se misturam ao próprio choro do céu em um momento de catarse, de explosão, de quase epifania emocional, um sorriso e os pés a bailar. Essa cena, do excelente “A Falecida”, de Leon Hirszman, tem seu significado próprio, sua beleza particular – e nas mãos de Eryk Rocha, a sequência ganha uma nova vida, um novo corpo ressignificado.

“Cinema Novo”, filme ganhador do prêmio de melhor documentário no Festival de Cannes, é assim: uma verdadeira “arqueologia da memória” que une recordação e percepção, o velho e o novo e o antigo e o inédito para transcender. Partindo de incontáveis materiais de arquivo – entre cenas e áudios de filmes e entrevistas -, Eryk Rocha, movido pelo espírito cinemanovista, cria uma homenagem e um tributo ao movimento cinematográfico que mudou o Brasil e o mundo.

Estão todos lá: Glauber Rocha, pai de Eryk; Nelson Pereira dos Santos; Leon Hirszman; Joaquim Pedro de Andrade; e muitos outros, conversando entre si, nos contando diretamente (quase como uma conversa de compadres) como o lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” propiciou os meios e os fins para que os cineastas brasileiros da década de 60 criassem uma nova e revolucionária linguagem cinematográfica.

Fortemente influenciado pelo neorrealismo italiano, a nouvelle vague francesa e o construtivismo russo, o movimento do Cinema Novo, compromisso com a verdade e com a realidade, buscava retratar os problemas do povo e o Brasil como ele era naqueles anos, criticando duramente a estrutura da sociedade brasileira (pré e pós golpe militar) e o crescente individualismo que se alastrou por todas as esferas do país.

E esses ideais estão presentes em “Cinema Novo”, um olhar documental para o passado que, infelizmente, ainda diz muito sobre o nosso presente – principalmente em um âmbito político. No entanto, o que possibilita que “Cinema Novo” se sobressaia frente aos registros documentais tradicionais é o olhar lançado pelo diretor em relação às imagens e sonoridades de arquivo das quais dispõe.

Estruturando sua obra como uma colagem audiovisual brilhante, “Cinema Novo” é um filme-ensaio ancorado na montagem (trabalho, aliás, impecável de Renato Vallone), um dispositivo cinematográfico que alia discurso e afeto, informação e sentimento, prosa e poema, fotografia e cinema.

A potência deste amálgama audiovisual, dessa formação de um novo corpo poético e vivo, é evidenciada na triunfal montagem da sequência inicial do filme, digna das obras maiúsculas: é  ela que dita o ritmo do resto da obra, abrindo espaço para que “Cinema Novo” pulse na mesma frequência do movimento que analisa.

Célebres sequências como a corrida desenfreada da perseguição de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, a penosa e angustiante caminhada dos retirantes em “Vidas Secas” e o louco, colorido e caótico cotidiano da cidade grande de “Macunaíma” agora emocionam, instigam e incomodam de maneira distinta: por causa do choque e da justaposição provocados por Rocha – que, entre passado e presente, dá a luz a uma obra que é movimento, espírito e tempo.

E enfim, como Zulmira, somos acometidos por uma catarse: “Cinema Novo”, esse documentário, essa obra que é puro Cinema Novo, é um filme tão vivo e tão presente que respira e parece querer sair da tela – ou nos puxar para dentro dela.

 

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