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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

“O erro de todo americano é pensar que você precisa cometer um crime para ser preso”, ouve Ed Horman (Jack Lemmon) logo após chegar ao Chile – dias depois do golpe militar que derrubou o presidente eleito Salvador Allende, mergulhando o país em uma das ditaduras mais sanguinárias e brutais da história. Em “Desaparecido”, Ed, ao lado de sua nora Beth (Sissy Spacek) precisa investigar por conta própria o sumiço de seu filho.

Confuso, mas crente na boa vontade do governo de seu país, auto-proclamado defensor da liberdade nos quatro cantos do mundo, Ed vaga pelas ruas ensanguentadas e caóticas de Santiago em uma busca desesperada que o obrigará a realizar a dolorosa travessia da verdade, desfazendo a fina névoa de mentiras e ilusões sob a qual vivia.

Aqui, o cineasta Costa-Gavras estrutura, com elegância e incisividade, uma obra extremamente crítica às ações imperialistas do governo estadunidense entre as décadas de 60 e 80, época em que os Estados Unidos foram determinantes para a instauração e manutenção de governos ditatoriais em vários países do globo, principalmente na América do Sul.

Toques de recolher, militares desfilando pelas ruas da cidade empunhando fuzis, milhares de pessoas presas no Estádio Nacional, outras milhares desaparecidas, corpos jogados em salas e em telhados de necrotérios à espera de identificação e cadáveres apodrecendo em plena luz do dia nas calçadas e nas praças de Santiago: nenhuma violência escapa das lentes do diretor grego, que, em momento algum, faz da brutalidade dos militares um espetáculo, um show – e talvez seja por isso que cada uma das cenas nos afetem tanto.

É evidente que há algo por trás do desaparecimento de Charlie (John Shea), mas Ed não consegue enxergar isso; acredita que tudo o que Beth diz é produto de uma intensa paranoia, uma mania de perseguição infundada e que a embaixada estadunidense, que só atrasa seus esforços e dificulta sua busca, realmente deseja ajudá-lo. Em uma interpretação fabulosa, Jack Lemmon compõe Ed como o clássico homem religioso e conservador que acredita que sua pátria é um paraíso.

Sissy Spacek, por sua vez, é o contraponto à rigidez conservadora de Ed: a jornada de Beth e de seu sogro é tortuosa por causa da oposição de suas tendências políticas e de suas personalidades. Mas é batendo de porta em porta, ouvindo informações pouco confiáveis, encontrando migalhas em uma trilha interminável de pistas, que os dois “detetives” percebem que precisarão se unir frente à crueldade da realidade.

Sem perder o humanismo de vista e sem deixar de construir emocionantes relações entre os seus personagens, Costa-Gavras desenvolve cada elemento do roteiro para que o filme funcione em duas vias. Simultaneamente, “Desaparecido” é um suspense (um filme de detetive e de mistério) dramático sobre a relação entre pais e filhos e um incrível exemplar do cinema político: um manifesto contra a opressão propagada em nome da “democracia”.

Lançado em 1982 e retrato fiel do golpe militar de 11 de setembro de 1973 no Chile, o filme ressoa tão forte ainda hoje porque o combate que empreende é um esforço, infelizmente, atemporal. Certamente os tempos são outros, mas as barbáries ditatoriais disfarçadas de medidas democráticas continuam vivas – e a recente onda de violência contra a população negra nos Estados Unidos e a ascensão de Donald Trump provam esta hipótese.

Assistir à “Desaparecido – Um Grande Mistério” é como levar potentes socos repetidos na boca do estômago. É uma experiência difícil e incômoda, porém necessária, emocionante e instigante; é como ouvir um grito, um grito que nos diz que a luta não pode parar.

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