pese

NOTA: 5,5 / Nathalia Barbosa

“Pequeno Segredo”, filme brasileiro indicado para concorrer uma vaga ao Oscar, é baseado em uma história real diretamente ligada à vida do diretor do longa, David Schurmann. O início com um quadro mostrando as ondas do mar e que, pouco tempo depois, há um longo travelling pelas águas até um corte que mostra uma cerimônia envolvendo nativos resume o filme: um barco que veleja por um mar de histórias que se cruzam, mas se perde em um oceano de monotonia e mesmice.

Com predominância de voz off –  não uma voz categórica, mas vozes das personagens, dando um tom altamente subjetivo –, revela-se um drama de família: Kat (Mariana Goulart), uma menina de doze anos, possui uma doença que a mãe, Heloísa (Julia Lemmertz), superprotetora e, até mesmo, um pouco abusiva, esconde de várias pessoas.

Com cortes excessivos, o filme é um emaranhado de tramas que se interligam entre três lugares: Pará, Florianópolis e Nova Zelândia. Kat é um elo de ligação entre seus pais biológicos – Jeanne (Maria Flor) e Robert (Errol Shand) –  e seus pais brasileiros adotivos.

Robert é um gringo viajante, que não suporta ser preso por alguém ou por algum conflito. Por isso, deixa sua família em Nova Zelândia – principalmente para se afastar de sua mãe possessiva, Barbara (Fionulla Flanagan) – e passa a trabalhar em um território quase desconhecido do Brasil. Na Região Norte, conhece Jeanne de uma maneira que o filme atropela e parece de uma natureza absurda. De um simples oi em alguma rua movimentada, um romance, que nada entusiasma o espectador, começa.

Sem cenas de sexo, morno todo tempo, há um conflito quando o casal parte para a Nova Zelândia para que Robert apresente Jeanne aos seus pais. Em um barco com o nome da moça (lembrando o “Jenny”, de Forrest Gump), o casal chega ao país do outro lado do Oceano Pacífico e a mãe do rapaz reprova, fortemente, a moça, revelando um preconceito com o Brasil: uma visão estereotipada que aqui é uma enorme floresta tomada por índios e que a brasileira é só uma moça bonita que quer se aproveitar de seu filho.

Apesar de todas as adversidades, Jeanne tem uma filha, Kat. Além disso, encontra amigos brasileiros que logo se tornam uma espécie de família para lhe ajudar com o novo lugar: Heloísa e Vilfredo Schurmann (Marcello Antony).

O círculo familiar não dura muito e Robert tem de deixar Kat com a família brasileira que, agora, torna-se a guarda legal da menina. É a partir desse fato que percebemos como as peculiaridades de uma criança que cresce com uma grave doença afeta uma família rica de Florianópolis, sendo a leitura do diário de Kat pela voz off de Heloísa um fato marcante para percebermos o medo e cuidado excessivo materno. Mas, então, temos um problema gravíssimo de produção.

“Pequeno Segredo” não é nem um pouco realista. Não convence, afasta qualquer crítica social: deturpa o cenário brasileiro higienizando todos os aspectos possíveis. Para começar, não há nenhum problema estrutural na Região Norte. As casas são românticas, como de Barbie, com pintura impecável, não há nenhum problema de iluminação, as ruas são bem pavimentadas, ninguém fica suado, os instrumentos de uma banda local são super novos e reluzentes e o máximo que há de “pluralidade” é uma personagem morena, amiga de Jeanne, que quase não aparece no filme. Já em Florianópolis, não há muito o que discutir além de que só vemos uma família de classe alta, com barco próprio e, para completar, as atuações são artificiais e os diálogos são extremamente engessados, como a cena que Kat leva sua amiga Luana ao barco de sua família para velejar.

Por último, o filme tinha de passar uma imagem politicamente correta por meio de uma mensagem conscientizadora: um simples trecho, no final, sobre prevenção e transmissão de AIDS. Porém, exploraram, de maneira muito simplista e confusa (até porque há muitos cortes para tentar organizar o maior número de acontecimentos possível de todas as pessoas envolvidas) a questão da doença nos anos 90, apenas com foco na transfusão sanguínea, cenário no qual houve uma grande transformação – positiva e progressista – no sentido de remediação. A borboleta, que permeia o início e o final da narrativa, lembra Forrest Gump, novamente, por meio da analogia com a pena do clássico de Robert Zemeckis e que apresenta a mesma problemática do HIV por meio de uma personagem de nome parecido e com a mesma doença.

Apesar de ser uma boa homenagem de David à sua irmã, é incompreensível a indicação de “Pequeno Segredo” para representar o Brasil no Oscar. É clichê, é entediante, é sem sentido, é estereotipado, óbvio (não há espaço para reflexão e curiosidade, sabemos, sempre, o que acontecerá na tomada seguinte) e, com tantos cortes e cenas artificiais, a lição que fica é que menos é mais. A tentativa de ser “mais” do filme fez com que tudo se transformasse em uma nau sem rumo.

Anúncios