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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

1915, primórdios do cinema. Apesar de ser uma obra extremamente racista, exaltando inclusive a organização supremacista branca Klu Klux Klan, o polêmico “O Nascimento de uma Nação”, de D. W. Griffith, foi uma verdadeira revolução: muitos dos vocábulos cinematográficos presentes na linguagem da sétima arte até hoje foram ali germinados.

Avançamos 100 anos no tempo. Outro (polêmico) “Nascimento de uma Nação” surge; agora, no entanto, dirigido, estrelado, escrito e produzido por Nate Parker, um homem negro que narra a história de um levante organizado por um grupo de escravos liderados por Nat Turner (Nate Parker).

É preciso começar pelo nome pois o brilho deste “O Nascimento de Uma Nação” inicia-se evidentemente no título. É óbvio que não é uma coincidência; é, de fato, um comentário poderoso, perspicaz e contundente: o pulo do gato de Parker é utilizar as mesmas ferramentas que feriram certa vez para contra-atacar e ferir o racismo de volta.

A opressão contra a população negra nos Estados Unidos (e no mundo ocidental como um todo) é uma ferida aberta que Parker faz questão de retratar com todo o realismo possível. Assistir à crueldade e ao tratamento dispensados aos escravos é uma experiência incômoda e perturbadora que muitas vezes nos faz querer desviar o olhar.

É possível ver a desolação e a desesperança nos olhos de Nat quando, em uma de suas pregações, ele vê uma menina branca puxando uma menina negra por uma coleira; de fato, se pudéssemos ver a nossa própria reação, veríamos os mesmos sentimentos estampados em nossos rostos: “O Nascimento de Uma Nação” não é uma obra fácil de se ver.

Mas o aspecto da opressão não é uma novidade. Quando Cherry-Ann (Aja Naomi King) diz que estão matando negros só por serem negros, não só constatamos a triste verdade posta pelo longa como também lembramos que as coisas não mudaram muito dos anos pré-Guerra Civil, tempo da diegese do filme, para os nossos tempos.

O que o filme de Parker adiciona à categoria de longas sobre a questão da escravidão é esse olhar “genealógico” sobre a própria formação de uma sociedade: o nascimento de uma nação baseada na desigualdade e na violência.

O peso da mensagem pode ser, por outro lado, também uma das razões para que parte da narrativa não funcione. Até que o filme entre em seu curso e se torne um longa de vingança, de raiva, Parker narra a primeira metade de maneira apressada demais; a introdução dos personagens e da situação é manejada sem que exista um espaço para que o roteiro respire na tela.

Até o momento em que Nat começa a pregar, grande ponto de virada do filme, temos sequências com informações demais que se amontoam umas sobre as outras em um fluxo de superestímulos cuja urgência se encaixa melhor quando o cineasta chega onde quer chegar.

No entanto, por mais que a sucessão de eventos que antecedem os grandes momentos de “O Nascimento de Uma Nação” não seja tão bem conduzida, a contundência do longa solapa as próprias decisões problemáticas de  Parker como diretor.

No fim, ficaremos com imagens inabaláveis na mente e um gosto amargo na boca (e também desejando que Parker explorasse mais a questão religiosa que rende muito belíssimas sequências como a da floresta assombrada por espíritos malignos, mas essa é outra história). E se sairmos desconfortáveis e abalados, “O Nascimento de Uma Nação” terá cumprido seu papel.

Pode-se apontar falhas ou louvar decisões de direção e gostar ou não do filme; o que é impossível é não ser “tocado” pela brutalidade e atualidade de “O Nascimento de uma Nação”. Pode ser que este não seja um filme tão revolucionário em termos cinematográficos quanto aquele “Nascimento”, mas o fato é que a obra de Parker é simplesmente um dos filmes mais emblemáticos dos últimos tempos; é um longa necessário.

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