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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

No momento em que adentra a base da NSA pela última vez, Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt) se vê frente ao abismo da incerteza do futuro; a essa altura, ele ainda não sabe o quanto sua vida mudará por causa da decisão que tomou. Nós, por outro lado, sabemos bem onde a trama vai dar – culminando no ponto em que Snowden se torna um dos maiores inimigos dos Estados Unidos por divulgar documentos confidenciais da Agência de Segurança Nacional de seu país.

Uma das grandes qualidades, portanto, de “Snowden – Herói ou Traidor”, dramatização dos eventos que levaram Snowden de analista a whistleblower (denunciante), é nos fazer acreditar justamente que ele não conseguirá levar sua missão a cabo, nos fazendo duvidar de tudo que sabemos sobre a história de um homem que decidiu lutar contra um sistema.

E quando se trata de uma cinebiografia como esta, um thriller sobre um personagem notório, uma releitura dramática de eventos reais amplamente conhecidos pelo público, incutir a dúvida no espectador é crucial – e o diretor e roteirista Oliver Stone é um especialista nesse quesito.

Ao lado do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle, Stone usa e abusa de todos os estímulos visuais e sonoros de que dispõe para orquestrar realidade e ficção em sua missão de tornar mais acessível para o público em geral a história do whistleblower. Em um mundo marcado pelo bombardeamento de informações, “Snowden” segue a onda: é uma obra hiperativa tanto em sua engenharia de som quanto em sua construção imagética.

1) um sino de uma escola de ensino médio soa, repentinamente, como um comentário divertido para marcar o retorno de Snowden às aulas dentro de uma das unidades da CIA; em outro momento, este mais tranquilo, diversos cantos de pássaros embalam o romance do analista e de Lindsay Mills (Shailene Woodley); e, por fim, quando o protagonista coloca sua mente para funcionar, podemos ouvir os “bits” de seus pensamentos apitarem como se o cérebro de Snowden fosse um computador.

2) em um momento de intimidade do casal, a câmera de um computador se transforma – por meio de um longo zoom – em uma íris, um olho que tudo vê, vigia e espiona; dentro do quarto de hotel, na releitura de Stone para as filmagens do documentário ganhador do Oscar, “Citizenfour”, de Laura Poitras (Melissa Leo), a imagem muda de textura e de saturação e passamos a ver o que a câmera da cineasta está vendo; e quando Snowden está em um aeroporto, após vazar as informações confidenciais, o protagonista é filmado com o que parece ser uma câmera de celular.

Da saturação da paleta de cores à diversificação do trabalho de câmera até à ótima sequência em que O’Brien (Rhys Ifans) aparece em uma tela enorme, tomando todo o espaço do plano com o seu rosto, parecendo ser Golias perante o “Davi” Snowden: Stone está de volta à boa forma do início de sua carreira.

As intervenções cinematográficas que realiza não são tão joviais quanto as de vinte e cinco anos atrás, mas o seu retorno é muito mais importante em nível de conteúdo: sentimos falta da luta política de Stone, da incisividade de seus comentários e de seu combate – e em “Snowden”, o escândalo de um governo que vigiou seus próprios cidadãos usando o terrorismo como desculpa é um fato dura e corretamente criticado pelo cineasta.

Apesar do título em português deixar dúvidas quanto ao caráter de Snowden, Stone não tem dúvidas de que ele é um herói de nossos tempos; e, por mais controverso que seja, por mais que não seja um herói perfeito, Snowden é sim responsável por lutar contra um sistema de opressão e colocar sua vida em risco para fazer isso.

Com um elenco extremamente competente (Gordon-Levitt impressiona em seu retrato mais do que fiel de Snowden), “Snowden” marca o regresso de um grande cineasta e é uma verdadeira aula de como fazer uma cinebiografia. Um filme necessário para os nossos tempos hiperconectados – apesar de nos deixar (com razão) um pouco paranoicos.

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