beasts

#falaRenato

NOTA: 7,5

Embalados pelo jazz de uma cantora élfica, Newt (Eddie Redmayne) e a senhorita Goldstein (Katherine Waterston) esperam a chegada de um gângster local, um mafioso do submundo da magia de Nova Iorque que pode lhes dar a informação que procuram. Há uma certa tensão no ar junto com o aroma das bebidas, a fumaça dos cigarros e o suor dos tipos estranhos que se acotovelam nas mesas, observando os movimentos da bela intérprete.

Não demora para que o criminoso enfim se sente à mesa e cumprimente Newt, com um certa incredulidade. Afinal, o desajeitado britânico é o famoso “homem com a mala cheia de monstros”: as notícias correm rápido pelas ruas cinzentas da cidade que nunca dorme, capital do mundo dos trouxas (ou não-mágicos para os estadunidenses) e dos feiticeiros.

E o que Newt deseja é saber onde uma das criaturas que abriga em sua maleta foi parar. Mas é evidente que o paradeiro de um animal fantástico perdido em plena Nova Iorque não é uma informação de pouca valia; é preciso que o bruxo britânico, então, ofereça uma contrapartida. Se o espectador (ou o leitor) sentir uma certa dureza nesta síntese, estará certo: é essa a nova direção do universo Harry Potter nos cinemas.

Ambientado de maneira precisa, encantadora e elegante através de uma incrível recriação da década de 1920 nos Estados Unidos pré-quebra da bolsa com o característico toque de magia da escrita de J.K. Rowling, que assina o roteiro do longa, e muito influenciado pela estética dos films noir dos anos 40, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é uma obra que expande e complexifica o universo para fora dos muros de Hogwarts, a mais célebre escola de magia e bruxaria do mundo.

Mais sombrio e mais maduro do que os filmes anteriores, o novo filme de David Yates (responsável pelos últimos cinco filmes da franquia) acompanha os passos de Newt Scamander, um bruxo que aporta no país com o objetivo de adquirir mais uma fantástica e rara criatura para sua coleção e oferece um novo olhar para um velho universo aos fãs.

  1. geograficamente falando, é refrescante sair do perímetro de Hogwarts e deixar a Inglaterra para trás por alguns instantes. É incrível o fato de que Newt conhece a América do filme tanto quanto os espectadores, o que cria diversas possibilidades para que os cineastas reinventem o período sob uma ótica mágica, permitindo que o público descubra aquele local ao mesmo tempo que o protagonista;
  2. historicamente, o filme se situa na época em que Gerardo Grindewald estava próximo de seu auge – e sua ascensão coincide com a ascensão de um certo homem que também acreditava pertencer à uma raça superior e que por isso cometeu alguns dos maiores crimes da humanidade;
  3. tematicamente, por fim, “Animais Fantásticos” analisa questões complexas como a opressão, o fanatismo religioso (há uma seita religiosa que deseja extirpar os bruxos da face da Terra), o preconceito, a repressão e ainda as profundas relações entre política e mídia nos Estados Unidos.

O grande problema, no entanto, é que Yates e Rowling parecem não ter se desligado por completo da atmosfera dos filmes anteriores da saga e acabam perdendo a mão na tonalidade da narrativa em certos momentos, transitando do drama mais pronunciado e para a aventura mais familiar e cômica com alguma trepidação.

A sequência da caçada que Newt e seu companheiro não-maj Jacob Kowalski (Dan Fogler, o divertido alívio cômico do longa) iniciam, por exemplo, para recuperar os animais que escaparam da maleta oferece as cenas mais fracas e cansativas de “Animais Fantásticos”. Há até mesmo espaço para uma constrangedora ocasião em que Newt precisa realizar uma “dança do acasalamento”.

No entanto, nada disso quebra o encanto criado por “Animais Fantásticos”. Definitivamente, este é um filme que apresenta novos e interessantes personagens (como o Credence de Ezra Miller) e novas possibilidades para desvendar um universo amado pelo mundo inteiro. Ao acompanhar o crescimento de seus fãs, “Animais Fantásticos”, o filme mais adulto da série, continua, como sempre, enfeitiçando e encantando o espectador: seja ele um trouxa ou um não-maj.

#falaCaio

NOTA: 6

Se há um elemento nobre em Animais Fantásticos e Onde Habitam é a expansão do universo mágico de J.K. Rowling sem que exista uma repetição da história ou que o resultado pareça um esforço desonesto para arrancar dinheiro dos fieis seguidores de Harry Potter e seus amigos. Entretanto, este longa (recentemente anunciado como o primeiro capítulo de uma série de cinco filmes), ainda que divirta na maior parte do tempo, é uma aventura irregular, com alguns problemas que empalidecem o seu desempenho final.

A história, que se passa nos Estados Unidos na década de 20, acompanha o bruxo inglês Newt Scamander, um estudioso cuidador e defensor da liberdade de criaturas fantásticas das mais diferentes espécies. Já na América, para uma viagem, ele descobre que as leis contra as criaturas lá é bem mais restrita e que ataques suspeitos tem ocorrido. Neste meio tempo, ele esbarra com alguns personagens que vão ocasionar alguns problemas e acompanhá-lo nas soluções, como Jacob e Queenie.

O elenco principal está muito bem, tendo apenas o protagonista como seu ponto fraco. Eddie Redmayne entrega mais uma atuação afetada demais, em que lembra trejeitos de seu personagem Stephen Hawking no filme A Teoria de Tudo, pelo qual ganhou o Oscar de melhor ator, em 2015. Ele até tem um pouco de carisma, mas seus maneirismo afastam qualquer empatia com o personagem. Dan Fogler e Alison Sudol se saem bem melhor, interpretando os novos amigos de Newt. O destaque positivo fica com Colin Farrel, que é o centro das atenções em todas as cenas nas quais o seu personagem, o sombrio Graves, aparece. O negativo vai para o subaproveitamento do talento indiscutível de Ezra Miller, o Credence, em um papel que jamais é bem desenvolvido – embora, ainda assim, o ator atraia a atenção do público sempre que está em tela.

Falando em desenvolvimento de história, em sua estreia escrevendo roteiros de cinema, J.K. Rowling controi uma apresentação digna para os personagens, mas não escapa de algumas falhas que ficam ainda mais aparentes por causa da direção frouxa de David Yates, o mais burocrático (e mais duradouro) dos realizadores que já trabalharam na série. Por exemplo, embora seja louvável que o tom do filme seja mais adulto e sombrio, as criaturas são infantilizadas demais e as cenas de busca e captura cansam após um tempo – chegando no cúmulo do rídiculo com uma dança de acasalamento animal empreendida por Eddie Redmayne.

Ainda sobre o roteiro, as motivações/características de alguns personagens não ficam muito claras, soando como superficialidades, como a relação dos filhos adotivos e a sua mãe abusiva e anti-bruxos. Semelhantemente, Grindenwald, embora não seja o vilão do filme (que, por fim, não tem vilão) não é desenvolvido para além de manchetes de jornal (em uma boa abertura) e citações de outros personagens – o que faz com que o desfecho do longa pareça absurdo, já que todos parecem ter a total noção de que o acontece era provável, menos o espectador.

Contando com uma ótima ambientação, tanto da época, quanto do universo do Wizarding World, Animais Fantásticos e Onde Habitam é hábil em utilizar a dose certa de nostalgia para fazer bem o fan service – ganhando pontos também pela ótima trilha sonora de James Newton Howard, que em momentos certos, sempre invoca o famoso tema de Harry Potter. Tecnicamente, o filme também se destaca, embora as criaturas digitais me soem mais artificiais do que a média dos efeitos digitais utilizados e filmes recentes, como o novo Star Wars.

Embora ao final de seus 135 minutos de projeção o filme vá dando sinais de cansaço, ele diverte e aponta para um rumo interessante para uma nova saga neste mundo mágico. Suas falhas não comprometem tanto a experiência do espectador e deverão ser minimizadas a partir do feedback deste primeiro longa. No fim das contas, J.K. Rowling finca seus dois pés no posto de uma das artistas mais poderosas e influentes do mundo do entretenimento – e vão precisar de muita magia para tirá-la de lá.

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