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NOTA: 6,5 / Renato Furtado*

Abatido e esgotado, Evandro (Julio Andrade), o líder de uma junta de médicos que realiza “medicina de guerra” em um hospital no Rio de Janeiro, abandona seu jaleco nas costas de uma cadeira de ferro, deixa o corpo cair no assento e pede um café e um misto quente para o homem que vende lanches em frente ao hospital. Respira, observa a mão que treme (resultado dos vários remédios que toma para se controlar e se manter na ativa) e lança um olhar à enorme favela que se estende às suas costas.

De repente, um tiro ecoa e destrói sua fugaz tranquilidade. Logo, as enlouquecidas sirenes de uma ambulância, que chega cantando pneus, gritam, demandando a presença de Evandro. O médico veste seu jaleco novamente, sua armadura, e volta para a guerra. Em “Sob Pressão”, os dias não têm fim e nem começo: são apenas uma corrida contra o tempo.

Dirigido por Andrucha Waddington, “Sob Pressão” é um drama/suspense médico que já nos impressiona desde o primeiro momento ao demonstrar a ininterrupta e massacrante rotina de Evandro através de um plano-sequência digno de um documentário de guerra: câmera na mão, narrativa urgente, tensa e trepidante, que nos insere diretamente naquele cotidiano, naquele contínuo temporal eternamente vivido “sob pressão”.

O problema, no dia em específico, é que três pacientes chegam ao hospital: um policial, um bandido e o filho de um influente dono de um jornal local; cria-se, portanto, um dilema intransponível: quem a equipe de Evandro operará primeiro? Qual das três forças será a escolhida: a polícia, o poder paralelo ou a população em geral?

Em tempos de debates em torno de direitos humanos e da ascensão dos índices de violência no Rio de Janeiro e em diversas regiões do Brasil, “Sob Pressão” é um filme que traz à luz um debate político crucial para a nossa era através de uma narrativa de entretenimento acessível interessante (a obra recria um interior hospitalar com perfeição, da sala de cirurgia aos corredores lotados de doentes e de familiares em desespero) e que não deixa nada a desejar aos clássicos suspenses médicos hollywoodianos.

Por outro lado, o sucesso do filme em termos narrativos e temáticos é, por vezes, abalado pelo roteiro, que se estende demais após resolver a situação de conflito inicialmente colocada. Há um apêndice desnecessário em “Sob Pressão” que destoa da produção em geral – o bom suspense se perde quando os cineastas experimentam destrinchar a vida pessoal dos médicos em questão.

Não que a profundidade dos personagens seja irrelevante; no entanto, “Sob Pressão” se destaca mais quando seus personagens são trabalhados como arquétipos à serviço da narrativa, do cinema de gênero e do suspense da trama. Do contrário, as relações estabelecidas no “segundo” ato da trama se assemelham, infelizmente, à maioria das telenovelas por meio de diálogos canhestros e de soluções muito convenientes.

Apesar dos deslizes e imperfeições, “Sob Pressão” segue sendo um bom exercício de um tipo de cinema ainda pouco comum no Brasil, abrindo espaço para que mais produções similares ganhem espaço nas telas brasileiras. Ainda que se prolongue demais, o filme entretém e cria tensão como um bom filme de suspense deve fazer.

*Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio 2016

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