arrival

NOTA: 10

Lá fora, os ventos da mudança anunciam uma tempestade potente, mas a nave oval, em formato de concha que paira sobre um longo campo no meio-oeste dos Estados Unidos, chama toda a atenção para si; e é só quando o jipe militar se aproxima o suficiente do veículo alienígena, que a linguista Louise Banks (Amy Adams) se dá conta da magnitude da situação e da profundidade do buraco no qual entrou.
O traje laranja, pesado e esquisito, pouco ajuda a diminuir a frequência de sua respiração, pouco ajuda a aliviar seu nervosismo e pouco ajuda Louise a decodificar o simples enigma posto à sua frente: o que os alienígenas desejam? Quais são suas verdadeiras intenções? Por que não se movimentam? Por que não nos atacam? Por que não nos destroem e nos varrem do universo como a poeira cósmica que somos na imensidão?

“A Chegada”, novo filme do cineasta canadense Dennis Villeneuve, é uma dessas obras bissextas, um desses filmes raros que unem suspense e poesia, criadas de maneira tão apaixonada que parece mesmo reinventar a roda. E por mais que não seja necessariamente inovadora, a história de Louise Banks é um misto de espetáculo e minimalismo que guia o nosso olhar das estrelas para a imensidão da alma humana.

A invasão alienígena, a base militar montada pelo exército estadunidense no sítio de pouso da nave e as agendas políticas dos países cujos territórios serviram de campo de pouso para os extraterrestres – contando com a aparição nos EUA, são 12 naves que chegam à Terra – são pretextos para que o diretor e o roteirista Eric Heisserer abordem dois dos aspectos que nos tornam humanos, demasiado humanos: a comunicação e o afeto.

Enquanto a maioria das tramas similares à de “A Chegada” resolvem a problemática da invasão com as munições explosivas da guerra, o ápice cinematográfico da tríade composta também pelos dois últimos filmes do canadense, “O Homem Duplicado” e “Sicário”, aposta no ato da compreensão. Ao invés de destruir o Outro (ainda que a presença constante do exército abre a porta para essa possibilidade), Louise Banks e seu colega Ian Donnely (Jeremy Renner) foram recrutados justamente para decifrar os signos e as mensagens transmitidas pelos seres extraterrenos, para encontrar uma solução pacífica.

Além de ser uma ficção científica belíssima, um suspense de mestre sobre a linguística (um mérito por si só) e de manter o espectador na ponta da cadeira a cada vez que Louise e Ian visitam o frio, enevoado e misterioso interior da nave para tentar extrair alguma informação dos dois alienígens (os heptapods, que os dois cientistas carinhosamente apelidam de Abbott e Costello), “A Chegada” é uma verdadeira meditação sobre a existência humana.

O amor, a circularidade e o poder do tempo, a dor de uma perda (a filha de Louise, que deixa a mãe e o público órfãos na sequência inicial mais bela do ano), a morte, o destino, os inícios, os meios e os finais: nenhum tema que toca a alma humana escapa ao trato poético e filosófico da ambientação de Villeneuve. “A Chegada” pulsa “amor fati”, o amor aos fatos que Louise descobre aos poucos.

E como fio condutor da trama, Amy Adams concentra todos os pontos altos do longa em um ponto único, construindo uma interpretação apaixonada e sensível, entregando uma das melhores performances de sua carreira: são os afetos que transmite em seu resto que potencializam a etérea fotografia de Bradford Young, as composições fantásticas de Jóhann Jóhannsson e a elegância da direção de Villeneuve.

A atriz instiga os nossos afetos, nos afeta: quando não entendemos bem o que se passa, é porque ela também não entende – e é por isso que quando ela atinge o momento de clareza, o público é arrebatado, tem seu fôlego arrancado. Mesmo que o destino já tenha sido escrito por mãos que não as nossas, é preciso renegar a aceitação passiva e perseguir a determinação ativa de viver cada passo do caminho: é esta “a história de sua vida” que nomeia o conto no qual o filme foi baseado (“Story of Your Life”, de Ted Chiang).

Não é possível precisar o que mede um grande filme. Se pudéssemos responder esta pergunta, críticos e cineastas ficariam tão desempregados quanto os poetas em face de uma eventual descoberta da resposta para “o que é o amor?”. Precisamente, no entanto, é exatamente porque não sabemos a resposta – e por que nunca saberemos – que continuamos tentando encontrar a solução.

“A Chegada”, essa ficção científica titânica, com ecos de “2001”, esse delicado drama pessoal, é o tipo de filme que nos faz querer continuar encarando esse destino já escrito. É uma verdadeira obra de paixão, um trabalho de mestre que não renega o sentimento e que busca, mesmo, a grandeza. E como sua protagonista Louise Banks, se torna gigante ao aceitar o próprio destino: talvez seja essa a medida de um grande filme.

Anúncios