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NOTA: 7 / Renato Furtado

Jim (Mark Duplass) levanta a cabeça e, quase que imediatamente, abaixa o olhar novamente, procurando se esconder atrás das informações que lê em uma lata no supermercado. Mas, debaixo das luzes fluorescentes do corredor de condimentos e temperos não há nenhum canto no qual ele possa se tornar invisível; e, por fim, não demora para que Amanda (Sarah Paulson) finalmente perceba sua presença.

Nos milissegundos que lentamente percorrem a lacuna entre o momento em que ela decide chamar o nome de Jim e o instante em que ele percebe que não há para onde correr, cabe uma vida inteira. Mais precisamente, cabem 20 anos. Escrito por Mark Duplass e dirigido por Alexandre Lehmann, o desconfortável encontro dos dois evolui para um abraço esquisito e, em seguida, para uma longa conversa – sobre memórias, perdas, mágoas e sonhos deixados para trás -, o coração de “Blue Jay”.

E, gente, esses dois têm muito o que contar um para o outro. Afinal, desde que se separaram, os ex-namorados nunca mais se viram e é só por causa de um acaso do destino que a possibilidade para que eles se encontrassem foi criada. Entretanto, os rumos universais das vidas humanas não precisam de algo além de uma casualidade, de um golpe de sorte.

Assim, “Blue Jay” se desenrola através do peso da memória que reside em cada entrelinha do diálogo entre Jim e Amanda. Há uma qualidade real e serena na direção e nas imagens de Lehmann, nos diálogos escritos por Duplass e em sua interpretação e na de Paulson, que sustentam uma narrativa complicada por si só; afinal, manter o interesse do espectador em um filme que depende firmemente das palavras é uma tarefa complexa.

E, ainda que Lehmann perca, por vezes, o frescor das interações entre o casal protagonista, seu trabalho sobre a pergunta (por que eles se separaram?), o mistério que acompanhamos e buscamos desvendar do início ao fim é o suficiente para potencializar a melancolia das reminiscências trocadas e de feridas que nunca se fecharam.

No fim, também não haverá porto seguro para o espectador – nos restará apenas a identificação com esses personagens. “Blue Jay” não inova e não é brilhante, mas é sincero e emocionante e nos conquista a cada esquina virada nas ruas de uma pequena cidade interiorana sob a fria e agridoce luz de um amor que não se concretizou.

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