13th

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Um homem negro desce os degraus da escada, ajeita o chapéu e ganha a rua debaixo do sol do sul dos Estados Unidos. A década é a de 60 e esse fato, por si só, já deveria enfraquecer seu caminhar. Então, vem o primeiro empurrão, o primeiro xingamento. O homem negro tropeça, mas recupera a compostura e continua andando. Logo, uma multidão de homens brancos furiosos, violentos e racistas se junta em torno do homem negro, tentando humilhá-lo, derrubá-lo. Mas ele continua se levantando, continua seguindo, vez após vez.

Dentre os inúmeros e chocantes vídeos e imagens que compõem a incrível seleção imagética presente em “A 13ª Emenda” (novo filme da diretora Ava DuVernay e forte candidato ao Oscar de Melhor Documentário), esta sequência de pura resistência e determinação apresenta um impacto ímpar. E o motivo para tal relevância talvez seja o fato de que a certeza deste homem negro se assemelha muito à direção de DuVernay.

Simples, objetiva, contundente e “sem gordura”: a abordagem da cineasta é tudo isso e mais um pouco. Uma consequência direta é a forma comum deste documentário – afinal, DuVernay depende basicamente de imagens de arquivo. Entretanto, o peso da mensagem compensa qualquer questão de forma: aqui, o conteúdo, manejado de forma a desvelar a crueldade do sistema de uma nação inteira, é o verdadeiro protagonista.

É por isso que a cineasta escolheu os entrevistados presentes no filme. Nenhum deles (dos ativistas aos políticos, das pessoas que já foram presas àquelas que nunca perderam, de fato, sua liberdade e do brancos aos negros) enrola ou dissimula. O curto tempo (a duração é o outro único “defeito” do filme ao lado da forma; inclusive, “A 13ª Emenda” poderia e deveria virar uma série documental) demanda um “idioma” incisivo.

E, de fato, a perversão cultural estadunidense (que legitima o massacre da população negra) é uma questão de linguagem. O argumento desenvolvido por DuVernay, apoiado por uma riqueza de estatísticas, comentários históricos, econômicos e políticos e diversos pontos de vista, é que a 13ª emenda da constituição estadunidense aboliu a escravidão “de jure” (como lei instituída) e a substitui por uma escravidão “de facto” (literal) instituída no sistema carcerário dos Estados Unidos.

Um dos assessores da campanha da “guerra às drogas” (iniciada no governo Nixon na década de 70 e firmemente estabelecida no governo Reagan na década de 80) foi gravado assumindo que vários dos abstratos termos econômicos (como a própria ideia do combate aos narcóticos) criados para o exercício das políticas culturais fomentadas pelo governo dos Estados Unidos visavam, de fato, uma guerra contra a população negra estadunidense.

Se o conceito da “escravidão” não mais podia ser utilizado, a solução encontrada pelo establishment estadunidense para a manutenção do ideal escravocrata foi simples: mascarar atrás de outros conceitos, completamente inacessíveis e nebulosos, a ideia da inferioridade dos afro-americanos. Logo, a plantação se torna a cadeia e o estado das coisas permanece imutável.

Adicione ao caldeirão da opressão, por exemplo, o lobby de inúmeras empresas interessadas no lucro advindo das instituições carcerárias e de fiança para a criação de leis punitivas mais duras e a intervenção midiática e cultural através de filmes e telejornais criando a imagem de que os homens negros são todos selvagens, e o resultado é uma situação sem precedentes na história da humanidade: um estado escravocrata travestido de democracia, que privilegia o 1% e mata ou afasta (deliberadamente) de sua sociedade todo um estrato social e racial.

Importante notar também que isso não é uma exclusividade de Washington, DC. A pseudo-democracia, esse sistema político fascista e opressivo disfarçado de “governo do povo” marca todo o hemisfério ocidental; e, por mais que seu interesse seja majoritariamente local e que seus comentários sejam baseados em eventos puramente locais, um dos grandes trunfos de “A 13ª Emenda” é sua universalidade – é possível reconhecer, inclusive, que algumas das problemáticas abordadas no documentário estão enraizadas no Brasil.

Precisamente, somos fortemente afetados pela crueldade das imagens que demonstram o tratamento dispensado à população negra (no documentário estão casos recentes de violência policial que chocaram o mundo) e sentimos vontade de desviar o olhar ou vomitar com os discursos racistas e perversos de uma linhagem política que vai de Lyndon B. Johnson a Donald Trump porque vemos essas coisas acontecerem no “quintal de casa”.

Antes do fim, um último depoimento. Um dos entrevistados relembra que existem pessoas que dizem coisas como “eu nunca toleraria a escravidão se ela existisse hoje em dia” e afirma: a escravidão existe e nós estamos tolerando-a. Acompanhando os créditos finais, surgem versos de Common, que celebram a resistência da população negra e o seu heroísmo diário. Assim, “A 13ª Emenda” se encerra.

Todavia, como a imagem serena de um homem negro que decidiu que não cairia, que manteria seus passos, sua rota e que tomaria o controle de seu destino, independente do custo, o filme de DuVernay se prolonga eternamente. Um filme essencial e necessário: um tributo e um chamado à ação; o adversário pode ser titânico, mas a mudança é possível.

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