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NOTA: 8,5 / Caio César

Certas experiências na vida de uma pessoa são tão especiais que qualquer tipo de ação que tente emular o ocorrido desperta o medo de que isso, além de não igualar a emoção da lembrança, acabe de alguma forma prejudicando a memoria preservada. Por isso, os questionamentos sobre as novas produções no universo Star Wars após sua aquisição pela Disney. Na impossibilidade de se fazer filmes tão bons quantos os clássicos, valia a pena retornar àquele universo sem que isso acrescentasse algo de novo?

Após o êxito de O Despertar da ForçaRogue One retorna à história da trilogia clássica e resulta em um filme poderoso, ainda que com algumas falhas.

Dirigido por Gareth Edwards (apenas o seu terceiro crédito na função), o filme acompanha a história que foi contada em poucos segundos no letreiro que introduz o filme Guerra nas Estrelas, o episódio quatro da saga. Edwards, que entrevistas revelou ter se decidido pela profissão de cineasta após assistir ao filme nos cinemas repetidas vezes, expande a história dos rebeldes que desejam roubar os planos da Estrela da Morte. A figura central aqui é a jovem Jyn Erso, filha do cientista responsável por criar a arma.

Wars do título jamais foi tão bem representado e o filme apresenta ecos de um filme e guerra desde o início – algo muito bem vindo, já que é algo completamente fora da curva para a série. Novidade também é ter um elenco cheio de figuras não identificáveis pelo público – e sem a presença de um Harrison Ford aqui e ali para nos lembrarmos de que estamos entre amigos. Por isso, é louvável a força de Felicity Jones como uma protagonista forte e cuja empatia é facilitada pelo plot envolvendo sua relação com o pai, vivido pelo sempre ótimo Mads Mikkelsen.

Ainda assim, embora conte com um elenco de peso (mesmo que sem nenhum super astro), o roteiro por vezes investe em várias frentes sem se dar tempo para explicar melhor as intenções de cada personagem, o que acaba resultando em um Saw Guerrera (Forest Whitaker) um tanto aborrecido e superficial. A diversidade do elenco, entretanto, é algo significativo – tendo o ator Donnie Yen como destaque ao interpretar o místico cego Chirrut.

Talvez pela sucessão de acontecimentos com pouquíssimos momentos para desacelerar, o filme pareça ser mais longo que as suas duas horas e quinze minutos. O roteiro escrito por Chris Weitz (de American Pie e Crepúsculo… SIM) e Tony Gilroy (que teria assumido algumas equipes de filmagem, segundo boatos) entretanto, é bem dosado de referências e bem sucedido na ampliação do recorte histórico da saga – um parto cheio para os fãs que gostam de ficar caçando relações com a trama original.

Em determinado momento de sua produção, parecia que as coisas não estavam certas na Disney. Foi anunciado que a produção foi chamada novamente para regravações e, há quatro meses da estreia, não havia um trailer sequer liberado. Mesmo assim, diferente de Esquadrão Suicida (para citar um exemplo de produção problemática), onde cada fotograma na tela transpirava o desespero e interferências de terceiros no produto original, Rogue One é coeso e não demonstra quaisquer fraquezas relacionadas a estes atrasos – exceto em sua trilha sonora.

Composta pelo brilhante Michael Giachinno em apenas seis semanas (ele foi contratado em setembro, quando Alexander Desplat saiu do projeto por causa de sua agenda), a trilha por horas é intrusiva e estridente – além de parecer um pastiche da obra de John Williams para os filmes originais. Não há nenhum problema em evocar as melodias originais (na verdade isso é até muito legal!), mas nenhuma música do longa tem personalidade e parecem apenas versões descaracterizadas dos temas consagrados da série.

Todos as falhas do filme, contudo, se empalidecem frente ao terço final do longa – um primor de direção, montagem e fan service que deixou toda a sessão em êxtase. A presença de Darth Vader é de um bom gosto absurdo para os mais nostálgicos – além de surpresas que não estragarei com este texto. Rogue One é um filme preciso, tecnicamente impecável e cujas falhas são infinitamente menores do que a quantidade de acertos que apresenta. Este, amigos, é o poder da Força.

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