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NOTA: 7,5 / Renato Furtado*

A solene quietude da igreja enlutada é abalada apenas pelas palavras do padre, que pairam, pesadas, sobre o mar de roupas pretas que enchem a nave principal. Mas, para Ben e seus filhos, um funeral é um dia de cores e sua entrada exuberante choca a todos os presentes. O efeito que Capitão Fantástico produz  é tão chocante quanto.

Extravagante, o segundo longa-metragem de Matt Ross é um ponto fora da curva. Com grande paixão por seus personagens, o cineasta entrega uma obra que lembra o “clássico” do gênero, Pequena Miss Sunshine: um road movie sobre pessoas excêntricas vivendo vidas excêntricas em uma missão excêntrica.

Isso não significa dizer, no entanto, que  já tenhamos visto Capitão Fantástico anteriormente; o filme é como o que a família Cash fez: não tem precedentes. Pelo menos não é fácil lembrar da história de uma família que tenha abdicado das regras da sociedade para construir um paraíso revolucionário só seu em meio à floresta.

Entretanto, uma reviravolta obriga os membros da família Cash a deixarem seu refúgio para encarar um mundo hostil. Liderados pelo pai (Viggo Mortensen humaniza um personagem complexo e ajuda a tornar crível a situação), as interações dos Cash com uma sociedade que abominam permitem que o filme nos arranque um riso nascido do aspecto tragicômico essencial das dramédias.

Recheado de pequenos comentários radicais e certeiros sobre nós mesmos e sobre a sociedade Ocidental, o roteiro de Ross traz um humor incisivo e consciente sobre a condição humana contemporânea. A sequência do jantar demonstra, com irreverência e precisão, o combate da família ao capitalismo tardio – à sociedade do consumo exagerado, das imagens e das grandes corporações e suas outras derivações.

Mas é irônico pensar que Capitão Fantástico só nos desafie e nos choque em um nível ideológico e nunca em um nível dramático, onde fica muito aquém de Miss Sunshine. A certa altura, o longa, por mais que tente, não mais consegue esconder sua convencionalidade e insiste até mesmo em uma trilha sonora que nos informa o que devemos sentir.

Sempre que pode, o filme nos agrada, e como na disputa entre o avô e o pai das crianças no final da projeção, tudo se resolve de maneira otimista demais, incompatível com o tom realista e “combativo” da obra. A revolução que pulsa nos diálogos não transborda para a condução de Ross, que busca as lágrimas através da grandiosidade.

Porém, por incrível que pareça, a potência do longa não vem do choque ou do absurdo cômico e crítico de suas situações; vem de seus pequenos, simples e singelos momentos. A silenciosa, contida e minimalista cena final comprova isso: é a normalidade de mais uma suave e lenta manhã qualquer que faz Capitão Fantástico respirar e ser fantástico.

 

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

 

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