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NOTA: 8 / Renato Furtado

Seok Woo, Sang Hwa e Young Gook amarram fitas isolantes em seus braços, se armam com bastões, tacos de beisebol e quaisquer outros itens que veem jogados pelos bancos do trem e partem. Entre eles e o seu objetivo, três vagões depois, uma horda de zumbis ágeis, fortes e violentos, prestes a dilacerar um grupo de outros passageiros – entre eles a filha de Seok Woo e a esposa de Sang Hwa -, que estão presos em um dos banheiros do comboio. Começa assim uma das sequências mais tensas de “Invasão Zumbi” – e do cinema – em 2016.

O diretor e escritor sul-coreano Sang-ho Yeon parte de uma epidemia que transforma os cidadãos da Coreia do Sul em zumbis para dar um passo além. Se em nível de trama “Invasão Zumbi” não inova, a condução do cineasta, viva e empolgante, cria uma obra que é tanto um blockbuster quanto uma crítica à sociedade contemporânea; que, ao mesmo tempo, entretém, instiga, impressiona e incomoda.

Formado no cinema de animação, o cineasta possui um domínio cinematográfico estrutural e narrativo invejável. Cada sequência de “Invasão Zumbi” pulsa em uma frequência eletrizante que torna quase impossível desviar os olhos da tela. O medo e a tensão nos atraem e não demora para que os personagens nos conquistem.

Não é difícil criar uma identificação entre público e personagens quando o espectador vê outro ser humano, como ele, colocado em uma situação extrema em que um vírus não especificado gerou uma metamorfose que deu luz à criaturas que apenas desejam exterminar a raça humana – e tudo o que virem pela frente.

Mas, a grande sacada de Sang-ho é, de início, nos repelir, nos colocar contra seu protagonista. O personagem interpretado por Yoo Gong não é simpático; ele trabalha demais, é rico, executivo de uma grande empresa, não dá atenção para sua filha e é individualista até o talo. Em outras palavras: desprezível – difícil mesmo é não torcer para que ele morra na primeira dentada.

Caminhando pela estrada mais tortuosa, pela contramão, Sang-ho começa do zero, da folha em branco para construir sua jornada. É por isso que ele consegue emendar relações dramáticas emocionantes e um pano de fundo político à narrativa. Superficialmente, “Invasão Zumbi” é uma impressionante demonstração técnica, um exercício de suspense e ação formidável; e é subterraneamente que o filme demonstra sua verdadeira face.

A sequência do trem, descrita acima e que começa, de fato, na estação, é sensacional. Como um passeio de montanha-russa, sentimos de tudo: da tensão ao medo, da adrenalina às lágrimas, do entretenimento à crítica, Sang-ho literalmente faz o que quer.

Nessa altura, já estamos conectados com os personagens e quando eles são proibidos de permanecerem em um vagão porque é possível que eles tenham sido contaminados, Sang-ho se arma e em uma só briga demonstra aspectos políticos importantes da contemporaneidade.

Fundamentalmente, o ser humano foi “construído” para viver em comunidade. Porém, o que acontece é justamente o oposto. Diariamente, recebemos estímulos para incrementar nossa individualidade. E é por isso que quando os protagonistas se deparam em um local onde não podem entrar, onde os detentores do espaço – representados pelo empresário verdadeiramente desprezível que incita os passageiros do trem, demonstrando como a mentalidade de massa funciona – delimitam suas fronteiras.

Os nossos protagonistas, então, pra usar uma ideia contemporânea, são refugiados impedidos de entrar em um local onde podem recomeçar suas vidas por puro preconceito e egoísmo – e, finalmente, Sang-ho é sensível o suficiente para reconhecer, com tristeza, que o primeiro personagem a aceitar a derrota é o mendigo que acompanha o grupo, acostumado a ser excluído, marginalizado, visto como algo diferente de um ser humano.

No fim das contas, como na famosa série “The Walking Dead”, a obra de Sang-ho sabe bem que o ser humano é o lobo do ser humano. É a falta de empatia que esfacela o nosso senso comunitário. Se chegarmos ao fim, não será por causa de zumbis ou de ameaças “alienígenas”: será por nossa culpa.

E, ainda que o início e o final não atinjam a mesma qualidade do miolo do longa, “Invasão Zumbi” é uma obra potente dirigida por um cineasta que vê, entende e ataca com propriedade as próprias contradições de um sistema social e do ser humano em si.

 

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