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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Apesar de toda pompa e circunstância, há uma futilidade tamanha que proporciona uma virtualidade tão palpável – no fundo, esta parece mesmo ter substituído a realidade em si. Assim é o ambiente que rodeia Susan (Amy Adams) conforme a artista visual observa o espaço da galeria que abriga sua nova exposição. Tudo é vazio no silêncio da arte moderna; felizmente, por outro lado, o cinema de “Animais Noturnos” tem muito a dizer.

O novo filme de Tom Ford, aliás, se comunica, ao mesmo tempo, com a contundência da pedrada que acerta o rosto e com a elegância inigualável de uma obra de arte. Seu segundo filme é um devastador e magistral estudo sobre a morte – e as consequências deste “assassinato” – do casamento de Susan e Edward (Jake Gylenhaal). Baseando-se no livro “Tony & Susan”, de Austin Wright, Ford desenvolve uma narrativa intrincada que brinca e costura o passado com o presente e a ficção e com a realidade.

Acompanhamos, simultaneamente, a história da infelicidade de Susan e a história violenta do livro que lê: “Animais Noturnos”, trama policial escrita por Edward e dedicada à sua ex-mulher. E, para segurar as amarras desta empreitada, a técnica: temos a fotografia criativa, que brinca com o film noir, de Seamus McGarvey; e a montagem cirúrgica de Joan Sobel. E quando tudo se resume, enfim, a visão de Ford, sobra apenas o encanto do público perante à profundidade da investigação narrativa do cineasta.

Ao aliar as narrativas hardboiled dos livros policiais de Raymond Chandler à estética do mundo da moda, Ford fabrica uma crítica da futilidade e da virtualidade. Como ele bem sabe, vivemos em um mundo controlado por imagens – e também por narrativas cujos únicos propósitos são simular itens, objetos ou experiências da nossa própria realidade.

Em uma cena específica, Susan lê o livro (sempre banhada por uma luz azul, fria, impessoal) e se lembra de uma discussão que teve com seu ex-marido quando ainda eram casados. Lá, no passado, Edward caminha impaciente pela sala, próximo à lareira e aqui, no presente, Susan, desconfortável, é aquecida por uma tela de alta definição (que nada mais é que um conjunto de bites) que simula a ideia de uma lareira – que simula o calor, o crepitar das chamas e a luz quente e aconchegante.

Poderíamos também analisar outra ocasião: nesta, a personagem vivida por Jena Malone mostra como o novo aplicativo de seu celular permite que ela esteja com sua filha 24 horas por dia; mesmo que elas estejam separadas fisicamente e que o laço entre as duas não se concretize, de fato, o que importa para a mulher é que ela pode ver – e até ouvir o som da respiração da filha – como se estivesse lá, ao lado do berço.

É essa frieza – esse distanciamento asséptico e a valorização do fútil -.  o elemento que provoca a separação do casal protagonista – evento este que catalisa todos os acontecimentos do filme. O brilho de “Animais Noturnos” reside justamente aí: no cruzamento do thriller psicológico com as camadas de um drama metalinguístico e crítico. Mas a engenhosidade do roteiro e da crítica não seria tão potente se Ford não tivesse atores como Adams e Gylenhaal à sua disposição.

Os dois carregam a narrativa nas costas alternando entre dois personagens completamente diferentes: a Susan do passado e do presente e o Edward do mundo real e da ficção, representado por Tony, protagonista do livro. Suas interpretações são tão convictas e profundas que percebemos em que terreno o filme pisa dentro das várias camadas temporais e narrativas que visita apenas pelos olhares de Adams e Gylenhaal.

Dentro do livro, o filme ainda traz dois outros personagens fantásticos: o bandido Ray de Aaron Taylor-Johnson, homem que acaba com a vida de Tony e o xerife Bobby Andes de Michael Shannon, o responsável por caçar Ray ao lado de Tony. Estes dois (principalmente Johnson) entregam performances que ficarão marcadas em suas carreiras.

Por tudo isso, “Animais Noturnos” é um filme que demonstra que é inútil tentar perfurmar uma lata de lixo: a sujeira pode estar debaixo de muitas camadas de maquiagem, mas ela sempre se sobressairá. É um filme pesado que mostra que Ford, apesar de estar apenas em seu segundo filme, já é um cineasta maduro que sabe muito bem o que está fazendo. O público agradece.

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