150581

NOTA: 4 / Caio César

Os cinco primeiros minutos de O Vendedor de Sonhos são animadores. A mão firme do diretor Jayme Monjardim nem de longe lembra a frouxidão de obras como Olga, sua novela lançada nos cinemas na década passada. A São Paulo traduzida para as telas tem uma beleza ímpar, algo meio morto, meio apático que se traduz de maneira exemplar na tela. E então somos apresentados aos personagens de Dan Stulbach e César Troncoso.

E o que vem depois disso é um festival de sentimentalismo e auto-ajuda. E para cada um momento acertado, vinte erros – uma proporção que aniquila qualquer pretensão de ser uma obra densa, infelizmente.

Baseado na obra do autor Augusto Cury, psiquiatra e psicólogo especializado em obras de auto-ajuda, além de ser um dos nomes mais lidos no país, o filme conta a história de Júlio César (Dan), um homem que está prestes a se suicidar quando é visitado por um mendigo metido a filósofo, que não só o convence de desistir daquilo, como passa a ser seu guru pelas ruas de São Paulo.

Ainda assim, não é nos personagens que reside a fraqueza do longa, mas em seu roteiro. Os protagonistas parecem fazer o que podem para dar maior credibilidade às situações em que são colocados. Dan sofre menos, mas o uruguaio Troncoso pena debaixo de uma caracterização limpa demais para um mendigo – ou melhor, milimetricamente suja, como todos os seus companheiros das ruas de São Paulo.

Esquemático, o roteiro segue esquetes que parecem mais com um vídeo game, entrecortadas por discursos que são até contundentes, mas se encaixam muito mais em uma pregação religiosa do que em um filme. Dramaticamente, o único elemento que funciona é a narrativa que costura acontecimentos do passado e do presente de maneira inteligente e que, em momento algum, subestima a inteligência do espectador.

Entretanto, este mesmo roteiro possui situações tão absurdas que, principalmente no início, o espectador tem a sensação de que o personagem do mendigo pode se tratar de algum tipo de anjo, demônio ou aparição espiritual – já que ele tem o poder de locomover de maneira rápida e praticamente invisível aos olhos de policiais, civis, entre outros elementos que dividem com ele o ambiente.

Contrastam com esses elementos a belíssima fotografia e o bom trabalho de direção de Monjardim, que já tinha mostrado um maior apuro estético em O Tempo e o Vento, mas que parece, pela primeira vez, não fazer um filme que possua ecos visuais em obras televisivas, as quais ele tem o costume de dirigir.

Ao final, o longa parece cheio de boas intenções. Mas elas estão escondidas por baixo do sentimentalismo, do uso manipulativo da trilha sonora e de um roteiro piegas. Parece que a auto-ajuda funciona bem melhor na cama do nosso quarto, fazendo aquela última leitura do dia do que no escurinho do cinema.

 

Anúncios