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NOTA: 6 / Renato Furtado

Fundamentalmente, “Passageiros” não é um filme ruim. Afinal, a maior parte das sequências desta ficção científica dirigida por Morten Tyldum funciona bastante bem. Tanto como espetáculo quanto como um drama mais íntimo, a história de Jim (Chris Pratt) e Aurora (Jennifer Lawrence) é cativante a não ser por uma questão: o romance dos dois começa, essencialmente, da maneira errada – e termina de uma maneira pior ainda.

Em sua raiz, o relacionamento central da trama é baseado em sentimentos egoístas. É por isso que a interessante premissa de “Passageiros” caberia melhor em um filme independente, onde o roteiro de Jon Spaiths poderia ser trabalhado com distância do moralismo tradicional das produções de hollywood.

Não há dúvidas sobre o destino dos protagonistas – e o filme deixa isso evidente logo nos primeiros minutos. No entanto, esse ponto de chegada não é a direção anunciada pela trama (os dois tripulantes que acordam 90 anos antes do tempo previsto em que deveriam acordar em sua viagem para um novo planeta-colônia) porque “Passageiros” não caminha, em momento algum, com suas próprias pernas.

A falha não é culpa de Morten Tyldum – que apesar de não inovar em nada, cria boas sequências, tanto românticas quanto de suspense, capitalizando ao máximo o carisma de seus dois protagonistas -; e tampouco é culpa do roteirista, que antes do final, ainda encontra tempo para inserir mais uma chance para que a nave de “Passageiros” entre no curso certo. Não: a culpa é do conceito hollywoodiano da produção.

Temáticas interessantes são identificadas no roteiro aqui e ali. A viagem no centro da trama é um empreendimento de uma empresa que oferece uma saída do planeta Terra para quem puder. Não são raras as situações em que a corporativização de nosso mundo e a dependência da tecnologia sofrem duras críticas – por vezes, até mesmo com certo humor.

Ainda, a química atingida por Pratt e Lawrence salva o filme. Eles nos fazem esquecer de todos os problemas supracitados – e quando tudo parece dar certo, a direção de Tyldum, o roteiro de Spaiths e as performances dos protagonistas e de Michael Sheen, um barman androide, confluem em um todo muito coeso -; “Passageiros”, em seus melhores momentos, quando praticamente deixa para trás os problemas de sua premissa e de seu conteúdo, é um bom entretenimento.

Entretanto, as divertidas cenas de um Chris Pratt sozinho na nave ou a sequência climática em que os dois precisam salvar a nave de uma catástrofe iminente são enfraquecidas pela ética da trama. É uma pena: “Passageiros”, como demonstra a tensa sequência em que a gravidade é desestabilizada, tinha potencial para ser um bom filme.

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