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NOTA: 6,5 / Renato Furtado*

Sobre o preto, duas vozes dialogam em uma interlocução telefônica: fria, invasiva e impessoal. De um lado, uma atendente semi-robótica; do outro, Daniel Blake (Dave Johns), um carpinteiro que acaba emaranhado entre as teias da burocracia do sistema de seguros para desempregados e para trabalhadores lesionados. Quando a imagem surge, percebemos que Daniel está, na verdade, frente à frente com sua interlocutora em uma entrevista direta.

O distanciamento que emana entre os dois personagens nesta cena inicial é uma grande síntese do que está por vir em “Eu, Daniel Blake”, novo filme do veterano Ken Loach e vencedor da Palma de Ouro – uma verdadeira crítica ao estado das coisas, à estrutura burocrática do sistema capitalista ocidental, que massacra seus cidadãos e os trata como se fossem números ao invés de seres humanos.

Estilisticamente austero – o trabalho de câmera é tão seco que chega a ser simples, apesar de ser muito pertinente – , Loach é experiente: o cineasta sabe o caminho das pedras para trazer o espectador para o seu lado. Portanto, não demora para que o cineasta nos conquiste, de maneira muito natural, com o humor incisivo, mordaz e britânico de Blake, que surge em cada reação aos percalços que o protagonista encontra em seu caminho.

Em uma instância ou outra, é fato que todos já sofremos nas garras da burocracia e do descaso do governo. A condução refinada de Loach e o bom roteiro tornam, portanto, tarefa quase impossível para o espectador não se identificar com as provações sofridas por Blake enquanto tenta retornar ao trabalho – após sofrer uma lesão – e tenta ajuda Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças.

Endereçada à impessoalidade capitalista e à individualidade -“cuide da sua própria vida”, grita o gerente do banco ao ver que Daniel tenta intervir em um caso que não lhe diz respeito -, Loach estrutura uma crítica crucial para os nossos tempos. Por meio de uma argumentação teórica poderosa, presente em cada diálogo e situação, o britânico declara: é preciso combater o esfacelamento das relações humanas e buscar diminuir os abismos que construímos entre nós.

Entretanto, nem tudo são flores. No momento em que a história de Daniel Blake começa a evoluir para a inevitável tragédia anunciada pela própria trama, Loach não consegue manejar a transição do humor para o drama com a mesma habilidade demonstrada na condução da primeira metade de “Eu, Daniel Blake”.

Conforme o protagonista se entrega ao desespero face aos desafios intransponíveis impostos pelo sistema, que esgotam sua renda pouco a pouco, a narrativa de Loach se torna muito trepidante. A abordagem do diretor para estabelecer a identificação público-protagonista-mensagem deixa de parecer natural e refinada e começa a soar esquemática e manipuladora.

Praticamente negando o realismo afiado e a elegância anteriormente demonstrada, Loach se rende a excessos melodramáticos e recorre a soluções fáceis, fracas e apelativas, parecendo nos querer levar às lágrimas a qualquer custo. A cena em que Blake, por mero acaso, encontra uma carta de Katie jogada ao chão e quando ele a confronta, em seguida, por causa do conteúdo da correspondência evidencia o rumo pouco sutil tomado por Loach.

Além do espectador, quem mais sofre é o próprio protagonista da trama. Interpretado com delicadeza por Dave Johns, as nuances de Daniel Blake são solapadas pelo peso do discurso. É por isso que as cenas mais emocionantes e instigantes do ator soam apenas como uma sobrevida fugaz: seja quando ele é visto pelos olhos da filha de Katie, em um plano subjetivo belíssimo, ou quando realiza o seu protesto maior.

É uma pena, finalmente, que um personagem que tinha tudo para ser icônico por ser apenas mais um homem comum em sua luta contra o sistema não atinja todo o seu potencial por ter que se tornar, necessariamente, um ícone calculado, um veículo frio para os ideais de Loach.

Como o emocionante discurso de Katie – sensivelmente interpretado por Squires – bem demonstra, o longa tinha espaço para crescer. Enquanto manifesto político ou ensaio crítico, “Eu, Daniel Blake” é poderoso, necessário e valioso; do contrário, é apenas mais um filme comum.

* Esta crítica faz parte da cobertura do Festival do Rio de 2016

 

 

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