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NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

“O homem que caiu na Terra” é uma adaptação do romance de Walter Trevis feita pelo cineasta britânico Nicolas Roeg. O longa ganha destaque por ser um dos trabalhos mais extensos de David Bowie no cinema e, sendo 2016 um ano emblemático para os fãs do camaleão do rock, não poderíamos deixar de lembrar do homem que encerrou sua passagem aqui neste planeta.

Lançado em 1976, o filme não é uma ficção científica com fotografia mega futurista como “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Star Wars” ou afins. O máximo de inovações que temos são sobreposições de tomadas com visões de corpos e fluidos flutuando no espaço. O foco, realmente, é o roteiro.

Tudo começa pela visão da Terra: algo vai chegando mais perto e, então, há uma espécie de câmera subjetiva em uma nave espacial pousando nas águas do Novo México. O pouso traz à Terra Thomas Newton (David Bowie), que deixa sua família para trás em busca de água.  Para contrastar a cultura dos homens e o alienígena que aqui chega, há vários cortes que revezam ora Newton no quadro, ora as coisas que ele vê – comércio, carros, pontes, etc.

Newton, porém, já aterrissa sabendo de vários procedimentos realizados na Terra e um deles é a burocracia em torno das invenções, valiosas para obter lucro por meio da rápida obsolescência. Sua primeira ação significativa é conseguir dinheiro – ato simbólico ao longo do filme para demonstrar a capacidade humana de atribuir valores às coisas – e, após isso, procurar o advogado Farnsworth (Buck Henry), especializado no registro de patentes. Newton, como uma espécie de choque de civilização e alguém do futuro, firma nove patentes de inovações muito à frente do que é visto neste planeta.

Logo, enquanto há um assombro no mercado que desperta uma corrida para conter o progresso dentro do que é possível alcançar pela mera competição mercadológica, Newton começa a assumir traços mentais e comportamentais humanos. Para essa transição, dois personagens são fundamentais: Mary-Lou (Candy Clark) e Nathan Bryce (Rip Thorn).

Há um significativo contraste entre os dois. Mary-Lou, uma simples camareira de hotel, não acredita que possa fazer algo marcante na história e julga sua existência como uma passagem insignificante na terra. Logo, utiliza como horizonte sua fé e idas à igreja, podendo ser representada pela fala de Zaratustra a respeito da criação de deus: “O espírito desses salvadores era todo vácuo, e nesse vácuo tinham posto a sua loucura, o seu supre-faltas a que chamaram Deus.” (Assim Falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche). Já Bryce, um cientista, é movido pelo desejo de inovação – negando a educação academicista maçante –, acredita em si mesmo e nos julgamentos dos outros homens.

Por trás de suas personalidades, há espaço para loucura, crises de libido e de caráter, considerando os valores já postos pela civilização. Essa discrepância de ideias sobre existência, deus e homens procurando preenchimento de vazios por meio da religião, da mídia, do sexo e das bebidas pode ser resumida como uma enorme crise existencial resultante das pressões sociais e excesso de mensagens sem significado e/ou que ultrapassam a capacidade de assimilação.

O vácuo, supracitado no aforismo de Nietzsche, pode, também, ser chamado de Newton, já que Mary-Lou e Bryce passam a viver em torno dos desejos do extraterrestre, considerado como uma solução. O problema é: Newton, com o convívio humano e com a utilização excessiva de rádios e televisão, perde o foco e passa a ser um de nós. É, pois, engolido pelo sistema e pelo excesso de estímulos, seja pela vida cotidiana, seja pelo sistema capitalista. Portanto, Newton é um progresso abafado pela ganância, pelos vícios e por conflitos alimentados por dinheiro.

Quase que simultaneamente, o álbum Low, lançado em 1977, apresenta Bowie com o mesmo visual de seu recente papel e uma temática parecida: crise existencial em meio ao contexto sociopolítico-econômico. Seria Bowie um verdadeiro Newton esperando pela resposta de Major Tom para fugir da Guerra Fria em curso na época?

Talvez fosse, mas, assim como Newton encontrou dificuldades para lidar com situações difíceis na Terra, Bowie, em 2016, tornou-se uma Blackstar antes mesmo de presenciar um ano tão conturbado. Na semana de 2017 em que o camaleão completaria 70 anos, O homem que caiu na Terra será relançado em versão restaurada pela Zeta Filmes. Uma homenagem não só para David Bowie, mas, ao mesmo tempo, uma lembrança de reflexão que, apesar de dificultada pelo encurtamento na adaptação, é preciso ser feita em meio a tanto caos. É preciso questionar o som e a visão, questionar os tempos em que vivemos.

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