avenir

NOTA: 7 / Renato Furtado

“O futuro parece estar comprometido”, diz o novo chefe financeiro da editora para Nathalie (Isabelle Huppert), a organizadora de uma prestigiada série de ensaios cujo lançamento corre o risco de ser cancelada. Na verdade, Nathalie nem precisava ouvir isso; afinal, o caos que se abateu sobre sua vida a faz saber muito bem que l’avenir (“o futuro” em francês e título original de “O Que Está Por Vir”) não guarda as mesmas esperanças de outrora.

Mesmo assim, ela sabe que precisa seguir em frente. Como filha dos movimentos políticos estudantis de 1968 na França, Nathalie, professora de filosofia, tem plena consciência que precisa fazer tudo o que pode para mudar, pelo menos o seu mundo. Sua missão, simples, como ela mesma diz, é fazer com que seus jovens alunos pensem por si mesmos; fazer com que eles construam um futuro melhor para si mesmos.

Este novo filme da dinamarquesa Mia Hansen-Love é, no fim das contas, justamente sobre as coisas que estão por vir, sobre o que se anuncia no horizonte e, enfim, sobre como lidamos ou não com elas. “O Que Está Por Vir” é uma obra, portanto, que aposta todas as suas fichas em seu conteúdo, nas coisas que tem a dizer.

Utilizando a filosofia como ponto de partida, o roteiro assinado pela diretora do filme, nos apresenta Nathalie questionando seus alunos, colocando suas mentes para funcionar, enquanto leva uma existência estoica: a resiliência e a força de Isabelle Huppert caem como uma luva no papel de uma mulher que precisa enfrentar os problemas que sua mãe doente e seu casamento quase falido acarretam.

Todavia, falta uma dimensão ao longa. A crítica internacional frequentemente comparou este filme com “Aquarius” por causa das similaridades temáticas (uma mulher mais velha que precisa lidar com a dissolução de seu mundo). A questão é “O Que Está Por Vir” não tem a qualidade que faz o longa de Kleber Mendonça Filho ser brilhante: o afeto.

De fato, a obra de Hansen-Love é intelectual e muito falado – sem ser carregada ou enfadonha, diga-se de passagem. Suas observações filosóficas são pertinentes e a inteligência de Nathalie é retratada com maestria por Huppert; mas, por outro lado, o filme desvia do curso da emoção mais do que deveria.

E não é como se a diretora não soubesse emocionar. Muito pelo contrário, aliás. Duas sequências se destacam em especial: a cena final, durante a ceia de Natal e a sequência em que Nathalie observa um dos lugares que mais ama no fundo ficar para trás, pela janela do carro. Em ambas, Huppert e Hansen-Love casam performance e trabalho de câmera de maneira similar à parceria de Kleber Mendonça e Sônia Braga.

“O Que Está Por Vir” é um drama competente, inteligente, objetivo e muito, muito honesto. Assistir às interpretações de Huppert e ao trabalho de Hansen-Love é sempre um privilégio, contudo, há mais espaço afetivo no longa do que as duas demonstram na maior parte do tempo. É uma pena.

 

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