foru

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

O edifício treme. O vidro das janelas trinca, racha. Podem se ouvir passos apressados descendo as escadas e os gritos de medo dos moradores. Todos foram pegos de surpresa; afinal, ninguém pode imaginar que o próprio lar está prestes a desmoronar. É dessa forma, com paciência e elegância em um só plano-sequência, que Asghar Farhadi nos apresenta ao mundo de seu novo filme, “O Apartamento”, vencedor dos prêmios de Melhor Ator (para o protagonista Shahab Hosseini) e Melhor Roteiro no Festival de Cannes.

Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) são um casal de atores que, às vésperas de estrear sua mais nova peça, uma adaptação de “A Morte do Caixeiro Viajante” de Arthur Miller, se vê obrigado a procurar um novo apartamento. Eles logo encontram um novo lar, mas o passado da última inquilina pode comprometer o futuro dos dois.

Aqui (e como sempre), Farhadi parte de seu misterioso roteiro e de sua condução precisa e controlada para destrinchar as contradições sociais de um Irã obrigado a se modernizar por causa de inúmeras pressões internas e externas, mas que permanece extremamente relutante em deixar suas raízes para trás.

Para isso, a adaptação da obra de Miller é crucial. Os ensaios e as apresentações vão se entrelaçando com o drama do casal e o mistério principal da trama de maneira que Farhadi possa estruturar suas críticas. Durante um ensaio, por exemplo, um dos atores começa a rir do papel da atriz que faz a prostituta da peça; e, em outra ocasião, Emad passa do ponto do improviso e acaba xingando outro ator da trupe.

Nos momentos mais simples e objetivos, nos pontos mais cotidianos e rotineiros, o cineasta encontra uma maneira para descortinar o mundo que aborda para o seu público – majoritariamente ocidental. Foi assim em “A Separação” e em “O Passado” também: sempre que Farhadi aposta nos seus atores (sua direção de atores continua estupenda) e nas minúcias dos dramas em que se envolvem, seus filmes tornam-se mais potentes.

Por outro lado, ele é um mestre da traição – às vezes para o bem e às vezes para o mal. Como de praxe, há um segredo e nada é o que parece. Conforme Emad se aproxima da resolução, seu estado psicológico se deteriora e o pulso narrativo de “O Apartamento” não nos deixa desviar o olhar; precisamos saber o que aconteceu, precisamos chegar até o fim.

Entretanto, como em “O Passado”, Farhadi perde a mão quando passa a dar mais atenção à reviravolta do que à crítica. Mistério e análise se fundem à perfeição em “A Separação”, por exemplo, mas em “O Apartamento”, o cineasta parece estar mais incomodado com a resolução de seu suspense do que com as coisas que tem a dizer sobre a sociedade patriarcal e extremamente religiosa do Irã.

No momento em que ele começa a abandonar a peça de Miller, “O Apartamento” começa a perder força. Quanto mais vemos da caçada de Emad, mais queremos retornar à peça porque, no fundo, é a ficção justaposta à realidade que dá o brilho à crítica – o grande trunfo do filme é a oposição criada entre os dois mundos.

O descompasso entre as duas conduções que Farhadi emprega acaba tornando o filme mais longo do que o necessário. Após o que seria um final satisfatório, há um apêndice demorado, pesado.

O que é uma lástima, uma vez que Farhadi dirigiu como nunca antes – o contraste entre o mundo real e o mundo da peça é belíssimo, e isso o leva a produzir algumas das mais belas imagens de sua carreira.

No fim das contas, a metáfora se completa e lares desmoronam, mas “O Apartamento”, que inicia com a força de um terremoto, termina com ecos distantes de um simples tremor.

Anúncios