sing.jpg

NOTA: 8 / Renato Furtado

Com a banda montada, os acordes soando e o microfone em sua mão, o jovem Conor (Ferdia Walsh-Peelo) vê o ginásio da escola ser tomado por luzes, bandeiras, sorrisos e, enfim, pela concretização de seus desejos: estão lá a moça que ama, os pais, juntos novamente, e o seu irmão mais velho, seu melhor amigo e confidente. Mas, como ele bem sabe, a realidade, às vezes, derrota o sonho. Entre melancolia, humor, amor e música, descobrimos o caminho de Conor em “Sing Street – Música e Sonho”.

E este novo filme de John Carney é o melhor de sua carreira. Isso porque o cineasta irlandês encontrou o meio do caminho entre o drama (“Apenas Uma Vez”) e a comédia romântica e musical (“Mesmo se Nada Der Certo”); ao equilibrar os dois lados do espectro das emoções, Carney nos emociona e nos faz sorrir em medidas iguais e nos mostra que, apesar de tudo, devemos perseguir os sonhos.

Afinal, essa é a trama de um jovem que monta uma banda para conquistar a menina de seus sonhos, Raphina (Lucy Boynton). Para essa jornada, Carney escreveu canções belas e cujas estruturas melódicas se modificam conforme a Sing Street Band (nomeada por causa do colégio Synge Street, onde os jovens músicos estudam) tenta encontrar sua sonoridade – e seu estilo visual.

Passeando pela estética de Duran Duran à de The Cure, “Sing Street” é também uma ótima análise da evolução musical dos anos 80 ao passo em que molda e reflete a evolução do amor entre dois jovens. Em sua essência, a obra de Carney é um romance de formação com um pé na sensibilidade e outro na consciência política – não faltam referências à situação política, social e econômica da Irlanda da época, uma atmosfera que influencia diretamente a vida de Conor.

É por causa de problemas financeiros que a família do rapaz começa a se desfazer, separando seus pais e o deixando um pouco órfão. Por isso, Conor sempre recorre ao irmão mais velho Brendan (Jack Reynor). Aliás, o grande trunfo de “Sing Street” não é nem o drama romântico ou a comédia musical.

É inegável que estes gêneros são as especialidades de Carney, mas o que diferencia e eleva “Sing Street” das outras obras é a relação entre os dois irmãos. O cineasta não dedica “Sing Street” aos “irmãos de todo mundo” à toa; a forma com a qual lida e retrata a dinâmica entre Conor e Brendan com tanta sensibilidade e tato que, muitas vezes, os diálogos sinceros que ligam os dois podem levar o espectador às lágrimas.

O desenvolvimento dos personagens periféricos pode deixar a desejar, mas a construção de Conor e Brendan (e também da modelo órfã e musa, Raphina) é exemplar. O primeiro é o aprendiz; o segundo é o mentor, aquele que teve tudo para vencer na vida e que não conseguiu. Esse misto agridoce de ressentimento e determinação em ver o irmão mais novo triunfar é o que faz de Brendan um dos melhores personagens que Carney já escreveu.

“Sing Street” é tão realista quanto o irmão mais velho e tão sonhador quanto o irmão mais novo e o brilho real de Carney enquanto cineasta é sempre encontrar uma forma de unir as duas propostas de maneira crível e terna. Seus filmes nos deixam esperançosos ao mesmo tempo em que nos deixam atentos para a montanha-russa de emoções que constitui a vida, com seus altos e baixos. E “Sing Street” é o melhor retrato dessa dicotomia que Carney fez até o momento.

 

Anúncios