lalaland

NOTA: 9 / Renato Furtado

O sol se põe em Los Angeles. É uma noite quente e o céu, entre o rosa e o azul, abraça Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone) com música e promessas de amor. O falido pianista de jazz arrisca girar em um poste de iluminação e cantar algumas notas, tentando atrair a bela aspirante a atriz. Ela, por sua vez, não cede no primeiro momento, mas, enfim, decide trocar os saltos pelo calçado de sapateado para ganhar a noite ao lado de seu par. “La La Land: Cantando Estações” é assim: pura magia cinematográfica.

A mais nova obra de Damien Chazelle (“Whiplash”) tem tudo para se tornar um clássico do cinema musical. Estão lá as sequências mirabolantes, magníficas e estupendas que só são possíveis na tela do cinema e também um romance, dividido em quatro estações, que aquece o coração e faz qualquer membro da plateia querer se aventurar em um número musical.

Ainda, há um cineasta no comando que parece ter um talento inesgotável. Damien Chazelle é um diretor ousado. Além de abrir o filme com o tradicional símbolo do Cinemascope e de rechear “La La Land” com referências que vão de “Casablanca” à “Juventude Transviada”, ele conjura um musical de moldes clássicos em pleno século 21.

Por meio de uma estética que não faz concessões e que retoma o vocabulário da Era de Ouro de Hollywood, Chazelle nos remete diretamente à estética e ao feeling das décadas de 40 e de 50 sem tirar o pé da atmosfera de nossa época – e seus embates e acordos com o presente por causa de seu amor pelo passado são expressos pelo personagem de Gosling. Em uma era de filmes complicados e espetaculares, Chazelle busca, nostálgico, pela objetividade dos anos de ouro, onde os filmes eram mais diretos e, ainda assim, profundos.

Por outro lado, é preciso reconhecer que seu roteiro não é um primor. O script de “La La Land” inclui algumas saídas fáceis e cômodas demais para um filme que sonha muito alto a nível de Cinema. E não é mera coincidência o fato de que o filme perde potência nos momentos em que se distancia de suas raízes musicais ao embarcar no realismo.

Entretanto, a escrita nunca foi o elemento mais forte dos musicais. Por isso, como em um jazz complexo, é a confluência do trabalho dos departamentos técnicos e artísticos, cada um deles trabalhando em sua própria “partitura”, que faz de “La La Land” um espetáculo.

Inspirados pelos trabalhos de Jacques Demy, Jean-Luc Godard e pela estéticas dos musicais clássicos estadunidenses, as coreografias de Mandy Moore, as lentes de Linus Sandgren e o design de David Wasco criam telas perfeitas para Chazelle, com paletas de cores riquíssimas e muito significativas e enquadradas de maneira radiante.

E, por outro lado, a montagem de Tom Cross e a perfeita trilha sonora jazzística de Justin Hurwitz constroem a moldura que dá a coesão perfeita à obra, fazendo jus à beleza, à plasticidade e à engenhosidade das sequências que abrem e fecham “La La Land”.

À época de “Whiplash”, o cineasta declarou que os minutos inciais e finais de um filme são os mais importantes de toda a obra; e ele não poderia estar mais certo. Afinal, são estes estes dois momentos que definem a maneira como o espectador entrará no filme e como ele deixará a projeção. Aqui, Chazelle nos lança em meio a duas sequências que entrarão para a história. É preciso ver para entender a magnitude dos eventos – e também para crer.

O que é necessário testemunhar também é a atuação de Emma Stone. Os prêmios que recebeu e que receberá são apenas uma consequência do tanto de alma que Stone colocou em sua personagem. Ela interpretou o papel de sua carreira em uma performance que só uma grande atriz poderia entregar.

As titânicas Ingrid Bergman e Lauren Bacall, que povoam os murais, paredes e pôsteres espalhados por Los Angeles, ficariam orgulhosas ao ver a performance de Stone. Ela rouba nossos corações dançando e cantando e emociona com olhares profundos e repletos de significados, mudando a direção de uma cena em um piscar de olhos. É ela que renova o brilho de “La La Land” constantemente. Aqui, nasce uma estrela.

Seu brilho é tanto que Ryan Gosling precisa se esforçar para não ser ofuscado. É o seu comprometimennto para com o papel (ele aprendeu a tocar todas as complexas peças jazzísticas do filme no piano sem saber ler partituras musicais) e o seu carisma que o salvam. É um grande ator e nos passos de dança e nos silêncios, transmite leveza e ressentimento, paixão e mágoa em sua trajetória como romântico incurável.

Um tributo, uma carta de amor à cidade de Los Angeles, ao amor em si, ao jazz, à sétima arte e também às formas de arte que já tiveram seus dias de glória, aos sonhos, aos corações partidos e àqueles que nunca desistem, apesar de todo e qualquer contratempo, este musical é como um encantamento ou um feitiço, que nos provoca lágrimas e risos em profusão, tudo ao mesmo tempo.

Se você conhece alguém que não compreende o conceito de “magia do cinema”, basta exibir as noites cálidas e eternas e os dias musicais e sedutores de “La La Land: Cantando Estações”. E se isso não for o suficiente, nada mais será.

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