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NOTA: 9 / Renato Furtado

O mar ondeia leve, carregando o barco confiante para longe da terra. Ouvem-se risos, sorrisos. Terrivelmente, e não mais do que de repente, a neve que cobre as calçadas e que pesa sobre seus ombros, invade a tela enquanto Lee, preso em memórias das quais não consegue escapar, tenta se livrar da nevasca. “Manchester à Beira-Mar” é exatamente como esse corte seco e violento que nos transporta do oceano em um dia ensolarado para uma manhã de um inverno impiedoso.

Assombrado por fantasmas de seu passado, o zelador Lee – interpretado com objetividade e “esvaziamento” por Casey Affleck – se isolou da sociedade por não conseguir mais se conectar com o mundo (é sintomático, portanto, que o personagem seja um zelador: pode consertar qualquer coisa, um vazamento ou um entupimento, mas não consegue reparar seus próprios defeitos ou tapar os vazios de sua alma).
A inadequação social de Lee, que frequentemente dá respostas curtas e secas demais às perguntas que recebe – o sobrinho chama a atenção do tio: “você não pode falar assim com as pessoas” -, abre espaço para que o diretor e roteirista Kenneth Lonergan possa alcançar um humor espirituoso que abre alguns espaço de respiro e pontos de toque com a realidade; uma forma de suavizar as muitas pancadas que o longa nos dá.
Porque “Manchester à Beira-Mar”, um filme difícil e tão fechado quanto seu protagonista, é um drama que bate e agride, que caminha sempre na contramão de seu espectador. O roteiro, que nos desafia e desconstrói nossas expectativas, é escrito com a precisão de uma história real. O cinema de Lonergan é assim: difícil de digerir exatamente por ser tão honesto, verdadeiro e direto.
Composto como um paciente estudo de personagem, o longa nunca entrega os momentos de catarse que desejamos. É por isso que, na cena da delegacia, onde a belíssima e triste trilha sonora cresce até um ponto de estagnação, sem nunca estourar em um acorde clímax, não encontramos lágrimas suficientes para liberar toda a angústia acumulada pelo depoimento dado por Lee à polícia.
Lonergan não faz promessas ou concessões. Ele ama seus personagens, mas, humanista e realista como é, não implora para que façamos o mesmo. O criador nos apresenta suas criaturas como elas são: nos decepcionamos com a reação adversa de Lee quando descobre, no escritório do advogado, que precisará tomar conta de seu sobrinho porque não encontramos a redenção que fomos treinados a esperar.
É natural que Lee não consiga atingir essa reviravolta pessoal: seus afetos são comprometidos pelas coisas que viveu. É essa relação humana com o passado, essa guerra constante (Lee não se comunica, ataca, e quase sempre de maneira tragicômica), o tema principal de “Manchesterà Beira-Mar”.
São as nossas memórias que moldam as formas assumidas por nossos pontos de vista: as nossas lembranças são as fundações de nossas percepções. É verdade que Lee gostaria que elas não fossem. No entanto, certas coisas são o que são e não há nada que possamos fazer.
O brilho de Lonergan como diretor e roteirista é compreender essa condição humana, de buscar a mudança e, quase nunca, ter a força para concretizá-la. Enfim, por meio de uma cirúrgica montagem assinada por Jennifer Lame, que costura o filme entre cenas do passado e do presente, “Manchester à Beira-Mar” encara o peso das memórias, da culpa e do remorso e se torna um retrato da vida como ela é.
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