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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Debaixo do silêncio e do frio da madrugada, o xerife Marcus Hamilton (Jeff Bridges), prestes a se aposentar, cobre o peito nu com uma manta vagabunda de um dos quartos do hotel mais barato da região e caminha pela pista vazia da estrada. O velho homem é quase uma assombração no meio do grande nada que compõe o interior do Texas. Mas, no novo filme de David Mackenzie, “A Qualquer Custo”, estas belas imagens duram menos tempo do que deveriam.

Isso não quer dizer, de fato, que a narrativa de dois irmãos ladrões de bancos da região não seja boa. Na verdade, “A Qualquer Custo” – uma espécie de faroeste modernizado e que traz não só as preocupações contemporâneas dos estadunidenses médios bem como retrata a composição dos estratos da população que mais sofrem com os efeitos, ainda vivos, da crise de 2008 -, é um bom filme; no entanto, é a sua estrutura contemporânea, naturalmente apressada, que justamente tira parte de sua potência.

Nos faroestes clássicos, era comum ver longos planos que simplesmente demonstravam as enormes e infinitas paisagens do meio-oeste dos Estados Unidos. É claro que os tempos são outros e que, agora, esses campos, essas planícies intermináveis, são povoados por plataformas de perfuração destinadas a coletar petróleo e por caubóis amargurados, mas a languidez do tempo é elemento chave de qualquer faroeste.

Por isso, as canções country sempre presentes (que tomam um espaço que poderia ser ocupado de maneira valiosa pela ótima trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis) e a montagem rápida empreendida por Mackenzie não potencializam as pausas, os silêncios e o sal da terra; a poeira entranhada no corpo e na fala desses homens rudes, tão duros quanto as formações rochosas que os prendem dentro de um horizonte simultaneamente belo e opressor, se sobressai, mas fica aquém de seu potencial.

Evidentemente, essa narrativa que mais se assemelha a uma faca de dois gumes só poderia mesmo ser possibilitada pelo roteiro de Taylor Sheridan. Se, por um lado, ele cria diálogos inteligentes e captura o senso de humor e a tristeza contida, o estoicismo da vida bruta dos texanos, ele também aponta o roteiro para uma direção complexa ao inserir muitos elementos complicadores dentro da trama.

O plano esquematizado por Toby e Tanner (Chris Pine e Ben Foster, respectivamente, em boas atuações) às vezes parece ser incompatível com a objetividade dos cenários e daquelas vidas. São algumas idas e vindas entre cassinos, bancos, advogados e brechas jurídicas e financeiras que não recebem o devido desenvolvimento.

A narrativa de vingança contra os bancos é interessante e reflete muito bem a condição atual dos Estados Unidos – as barreiras derrubadas e levantadas pela formação mestiça da nação estadunidense não escapam ao roteiro de Sheridan -; no entanto, esta não se equipara à qualidade e à eficiência da espinha dorsal da trama: o simples e inevitável embate entre os dois irmãos e a polícia, chefiada pelo personagem de Bridges.

Com o perdão do jogo de palavras, “A Qualquer Custo” é um filme que tenta nos empurrar sua inteligência e sua rebeldia a qualquer custo, sem perceber que é nos momentos em que não tenta fazer isso, que melhor funciona. Nenhum artifício narrativo ou reviravolta substitui o valor do silêncio compartilhado pelos dois irmãos, sentados na varanda, no pórtico da casa, à espera do momento da vingança, à espera de uma vida melhor.

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