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NOTA: 7 / Caio César

Estrelas Além do Tempo, a tradução nacional de Hidden Figures (Figuras Escondidas, no literal), é um título um tanto que equivocado. Isto porque, assim como o filme mostra, nenhuma das três mulheres protagonistas foram grandes estrelas. Reconhecidas através de seu esforço, elas viveram histórias extraordinárias, mas a beleza maior dos seus feitos repousa, justamente, no fato de serem três pessoas comuns que, devido a cruel conjuntura social daquele tempo nos EUA, passaram por discriminação e descaso para que o seu trabalho fosse valorizado – daí o Figuras Escondidas do título original.

Narrando os fatos com o pano de fundo da corrida espacial empreendida por EUA e Rússia nos anos 60, o filme se passa nos bastidores da NASA, a agência espacial americana. Lá, o racismo continua imperando. Negros não trabalham nas mesmas funções ou salas que os brancos. Os banheiros são separados. Toda essa situação reconhecidamente retrógrada (e, infelizmente, ocultamente presente em muitos aspectos da nossa sociedade). Na agência, três amigas negras se destacam, cada uma em seu setor: Katherine (Taraji P. Henson), Dorothy (Octavia Spencer) e Mary (Janelle Monáe).

O filme reserva à Katherine o papel de protagonista, muito porque ela trabalha diretamente nos cálculos para a louca missão de levar o homem à lua. É com ela, também, que o filme se aprofunda nas questões raciais – como nas cenas em que ela chega em seu novo escritório, ou quando precisa ir ao banheiro, mas na sua seção não há banheiros para negros.

É importante ressaltar o ótimo trabalho em conjunto do elenco – que acabou de ser premiado na mais importante categoria do SAG Awards. Taraji está muito bem, com a habitual força e personalidade que imprime em suas personagens. A novata cantora Janelle Monáe dá conta do recado com maestria, em uma personagem espevitada e ousada, que jamais perde a doçura ou a vontade de crescer. Na disputa com a colega Octavia Spencer ela se sai melhor – embora tenha sido preterida no Oscar, na categoria de melhor atriz coadjuvante, pela já ganhadora, em 2013, Octavia. Kevin Costner, que interpreta o encarregado da missão espacial, entrega um personagem contido, sereno, mas cuja consciência social fará com que o público se identifique no decorrer dos acontecimentos.

Tecnicamente, tudo parece estar no lugar certo. A direção “feijão com arroz“, a fotografia, a direção de arte que remonta à época, a trilha sonora composta com ajuda de Pharrel Williams. O problema é que, por vezes, tudo parece muito superficial. Mas esse era um risco ao conceber o longa como sendo um feel-good movie (um filme para se sentir bem). O filme geralmente é bem sucedido, mas algumas variações no tom comprometem cenas que deveriam soar mais desafiadoras – como as sequências em que a personagem de Taraji cruza o prédio para utilizar o banheiro.

Entretanto, o resultado final é positivo. E lançar luz na história dessas notáveis mulheres, honra uma série de tantas outras que jamais tiveram a oportunidade de receber o reconhecimento devido. Deste modo, a produção mais fraca entre os indicados a Melhor Filme no Oscar 2017, é também uma das mais contundentes.

 

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