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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Winfried (Peter Simonischek), utilizando seu alter-ego tresloucado, Toni Erdmann, um coach de como viver, senta-se ao piano e toca os primeiros acordes de “The Greatest Love of All”. Debaixo dos olhos de uma família romena que ele não conhece, ele repete a introdução até convencer Ines (Sandra Hüller), sua filha, a cantar. Relutante e envergonhada, esta performance encapsula a beleza excêntrica de “Toni Erdmann”.

Dirigida por Maren Ade, esta comédia dramática narra a história de Winfried, um professor de piano,  que tenta se reconectar com sua filha workaholic, a consultora de investimentos Ines, em um relato cinematográfico de quase três horas (!!!) de duração. E, neste caso, frisar o tempo da obra é importante porque “Toni Erdmann”, em si, frisa o tempo.

Adotando uma postura quase documental, a cineasta dá preferência aos planos longos (Ade respeita a respiração de cada sequência, imprimindo um ritmo invejável e que sustenta muito bem sua longa estrutura dramática) e movimenta sua câmera de maneira fluida como se o espectador seguisse cada passo da jornada de Toni e Ines quase que em tempo real.

Mantendo um controle invejável sobre o que narra, a alemã estrutura seus quadros para que possamos absorver o máximo do que ela põe em tela, estabelecendo uma relação interessante entre todos os elementos presentes no filme. Além de narrar uma dramédia familiar (o primeiro plano), Ade se demonstra muito interessada em também realizar um incisivo comentário político sobre a realidade social da Europa (o segundo plano).

Em “Toni Erdmann”, o lugar ocupado pelos personagens principais é tão importante para a curva dramática do longa quanto o pano de fundo desta obra – no caso, a realidade econômica europeia e ocidental como um todo, onde as firmas de consultoria possuem um grande poder, influenciando diretamente no equilíbrio estrutural de toda uma sociedade).

Por isso, são frequentes planos em que Ade “perde tempo” observando personagens que não moverão a trama para a frente em um sentido estritamente narrativo tradicional. Assim, se em um momento o fundo funciona como ferramenta cômica (na cena em que Toni encontra a filha e as amigas em um restaurante), no outro, funciona como instrumento dramático (ou na eterna presença das favelas de Bucareste, que surgem frequentemente de trás dos muros segregadores das ruas da capital romena).

“Toni Erdmann” representa, desta maneira, um casamento muito inteligente entre figura e fundo, entre forma e conteúdo – uma ligação que é sustentada pelos talentos e comprometimentos de Simonsicheck e Hüller. Afinal, são eles os responsáveis por tornar estas criaturas tão esquisitas em pessoas tão críveis, gerando uma identificação muito forte com a plateia – é difícil não se colocar no lugar dos dois, nem que seja por um instante sequer.

Fugindo sempre do melodrama das dramédias estadunidenses, Ade, no entanto, chega ao ponto em que sua firme luta contra as convenções e contra o sentimentalismo barato se converte em um tiro no pé. O ato final (que sabiamente resiste ao clímax, ao desfecho), infelizmente, é impiedoso demais com a proposta cômico-dramática levantada pela obra em seus episódios anteriores.

“Toni Erdmann”, que termina em um fade quase amargo, tinha tudo para falhar. No entanto, tudo dá certo por causa da coragem de Ade e de seus dois protagonistas, divertindo e emocionando seu público. Não é uma obra-prima, mas é definitivamente uma obra de pura inteligência, conduzida de maneira tão hábil que faz até mesmo com que o aparecimento de uma espécie de monstro búlgaro só potencialize seu encanto.

 

 

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