jackie

NOTA: 9 / Renato Furtado

“Às vezes, os personagens das histórias que lemos são mais reais dos que os homens que estão ao nosso lado”, diz Jacqueline Kennedy, ou simplesmente Jackie (Natalie Portman) para os íntimos, em tom de confissão. Por trás destas palavras, há algo além de uma simples referência ao mítico presidente John F. Kennedy) – assim como existem inúmeros subtextos além das imagens “superficiais” que compõem Jackie.

Forjado sobre a união perfeita entre atriz e cineasta, o mais recente filme do chileno Pablo Larraín resiste a se render ao mero “espetáculo de tristeza” que a maior parte do público deseja que o longa se torne – algo que as plateias estadunidenses, inebriadas pela disseminação da televisão, esperavam assistir após a morte de seu chefe de Estado.

De um lado, temos Portman – que mudou sua voz, seu timbre, sua postura e seu caminhar para se aproximar da Jacqueline Kennedy da vida real à sua própria maneira -, interpretando como nunca antes em sua carreira: este, sem dúvidas, será um dos papéis de sua vida, uma das personagens pela qual a atriz será lembrada.

Seu retrato oscila entre a coragem, a resolução, a determinação, a fragilidade e a insegurança de modo a refletir, com perfeição, a psique destroçada de uma mulher enlutada que, ainda assim, precisa seguir e manter sua imagem de “mãe do povo” intacta.

Ciente de seus compromissos, de suas responsabilidades e de quantas dúvidas externas pairam sobre sua capacidade intelectual e sua força emocional, a Jackie de Portman é uma jovem guerreira, vaidosa e destemida, que, ocasionalmente, sucumbe às pressões impostas pela mídia e pela tradição: em suma, é uma das personagens mais bravamente humanas a ganhar as telas dos cinemas nos últimos anos.

Por outro lado, o humanismo de Portman é equilibrado pela investigação cientificamente minuciosa e sensivelmente profunda de Larraín acerca do embate eterno entre a realidade e a ficção – caminho que este exímio narrador visual vem trilhando desde “No” e “Neruda” com um ensaísta que nunca recorre às simples técnicas dos relatos objetivos.

Sabiamente, Larraín (apoiado pelo roteiro não-linear de Noah Oppenheimer, que faz com Jackie confronte suas memórias ao mesmo tempo em que encara o jornalista de Billy Crudup, ávido pelos fatos, pela versão “real”) entende que não existe verdade: toda e qualquer trama “factual” é uma narrativa tão ficcional como outra qualquer, apenas uma cópia fabricada pela subjetividade de cada narrador.

Adotando uma câmera fluida (muito característica de seu estilo), Larraín ora trabalha com os rostos em primeiro plano como fotografias íntimas e ora trabalha com planos de conjunto estruturados de forma exuberante (os vários enterros de Kennedy, seja na Casa Branca, no Capitólio ou no grande cemitério a céu aberto, são filmados como se cada quadro da sequência fosse uma obra de arte autônoma).

Ainda, Larraín nos faz acreditar que Jackie é um filme lançado em 1962, não em 2017. Fora a recriação da atmosfera e do famoso documentário/tour sobre a Casa Branca apresentado pela primeira-dama, Larraín também insere Natalie Portman dentro das imagens de arquivo na montagem, justapondo, mais uma vez, realidade e ficção.

E, é claro que o coração da narrativa de Jackie também se manifesta nas palavras da personagem principal: a primeira-dama edita a trama de sua vida o tempo inteiro. Como ela mesma reconhece, esse é o seu trabalho: enquanto coadjuvante do presidente estadunidense, Jackie é uma contadora de histórias.

É por isso que ela deseja realizar um funeral inesquecível para o marido: porque sabe que o legado, que as tramas que permanecem vivas para sempre na impiedosa História, são muito mais importantes do que o que realmente ocorreu; “quando a lenda se torna verdade, publique a lenda”.

Encarregados de retratar duas mulheres diametralmente opostas – “Pode me chamar de Jackie”, diz a antiga primeira dama, abrindo sua personalidade para sua confidente Nancy (Greta Gerwig) -, Larraín e Portman recebem, ainda, o auxílio da belíssima e desarmônica trilha sonora de Mica Levi, que nos insere na fragmentada mente da protagonista.

O brilho desta obra, portanto, reside justamente no ponto de encontro e choque das narrativas conduzidas por Larraín, que compõe um épico assombroso, fantasmagórico e emocionante sobre a força do amor, o peso do luto e a necessidade do ato de continuar seguindo em frente, apesar de todo e qualquer contratempo.

“No dia seguinte, nos levantamos da cama e preparamos o café. Fazemos isso porque precisamos fazer”, declara o padre interpretado pelo saudoso John Hurt enquanto o sol, no horizonte, abençoa Jackie e seus filhos. Como Sísifo, ela empurrará a pedra colina acima, dia após dia, ora com um sorriso, ora com lágrimas inesgotáveis. Jackie é Cinema com “c” maiúsculo.

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