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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Buscar um sentido para as coisas que nos acontecem é uma constante humana; afinal, só mesmo a lógica tem o poder de organizar de maneira sequencial e cabível toda a sorte de eventos caóticos que nos rodeiam. Alguém pode apenas imaginar que é isso que o protagonista de “A Tartaruga Vermelha” tenta fazer quando acaba naufragando em uma ilha deserta, localizada no meio de lugar nenhum.

Ao seu redor, apenas a imensidão. Ele é um homem preso entre os limites do horizonte e os sons da natureza, sob a beleza do peso da chuva que abate o território e debaixo da opressão do medo da morte. Horas depois, com o fôlego recuperado após instantes de puro desespero, o homem sem nome começa a se adaptar e a praticar os atos necessários para sua sobrevivência até que consiga reunir madeira suficiente para construir uma jangada.

Assim que a imensa floresta de bambus o presenteia com os troncos dos quais precisava, o náufrago cria a embarcação improvisada e se lança ao mar, em um belo dia de sol. Flutua por alguns metros sem ser incomodado e começa a acreditar que poderá ver sua terra natal novamente. No entanto, uma misteriosa criatura, uma tartaruga vermelha gigantesca, destrói sua jangada e o obriga a retornar para o terreno “firme” da ilha.

Como as melhores obras do realismo mágico, “A Tartaruga Vermelha” não olha para trás. O diretor nos apresenta o filme da maneira como é e deixa a decisão de embarcar ou não na jornada para o seu público. É claro que os incentivos visuais (a animação é uma das mais belas dos últimos tempos, unindo a poesia ocidental tendo o traço oriental como base) encantam, mas, no fim do dia, a decisão é toda da audiência.

Caso o espectador não aceite o jogo proposto, a nova animação do Studio Ghibli poderá parecer apenas um embuste estético. No entanto, se os membros da plateia comprarem a direção para a qual de Wit conduz o longa, pode-se afirmar, com toda a certeza, que este será um passeio sem escalas em uma montanha-russa de emoções cujo destino final são as estrelas, o manto das noites em claro do náufrago, deitado na fria areia.

“A Tartaruga Vermelha”, de maneira sedutora e fantástica, brincando com as fronteiras entre o real e o surreal, abre questionamentos variados sobre a existência humana; a importância da família; a emoção e a primitividade do ser humano; a noção de sobrevivência; a irremediável impotência humana frente à natureza e à sua própria condição; e a vida em comunidade sem nunca perder sua honestidade: sem nunca quebrar o compromisso de que não nos dará respostas fáceis.

É uma obra, enfim, muito mais preocupada com o sentimento, com o que há dentro dos corações do que com há dentro da cabeça. Em “A Tartaruga Vermelha”, as sensações e os afetos reinam sobre a lógica – não é à toa que não existem diálogos no longa, eles são supérfluos -; um filme estruturado como um mistério, que bebe da fonte de outros gêneros mas que, ultimamente, resiste à qualquer categorização: é caos na sua forma mais bela.

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