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NOTA: 6 / Renato Furtado

Campos abertos e mares e montanhas e longas terras, a perder de vista, povoadas por borboletas e crianças correndo para lugar nenhum, sem temer a imensidão do mundo que ainda não conhecem. Uma delas é Saroo (Sunny Pawar), que, logo, se perderá do irmão em mais uma noite quente das estações de trem da Índia. A grande lástima é que a beleza de “Lion – Uma Jornada Para Casa” reside apenas em suas imagens.

Comandado pelo estreante Garth Davis, o drama narra a história real (tão impossível que só mesmo a vida para escrever uma trama como esta) de um homem (Dev Patel como Saroo adulto) dividido entre dois mundos e duas identidades – algo que parece acontecer também com o diretor, que não consegue decidir com quanto peso deve conduzir sua trama.

Em certos momentos, “Lion – Uma Jornada Para Casa” até consegue conquistar as emoções do seu espectador; em outros, no entanto, o filme demonstra não ter vergonha alguma de realizar uma intensa manipulação emocional, recorrendo à repetição exaustiva de cenas e a uma pesada utilização da trilha sonora (esgotando, consequentemente, a beleza das composições de Hauschka e Dustin O’Halloran).

A primeira metade do longa, que acompanha o jovem Saroo, foi realizada como um compêndio de cenas que demonstra a agonia do menino que se perde de sua família e que passa fome nas ruas de Calcutá. Instante atrás de instante, o menino passa por situações que parecem ter sido desenhadas apenas para nos levar às lágrimas – e se todas elas são reais, tanto pior, porque o drama da realidade se esvazia nessa condução.

Já na segunda parte, seguimos os passos do Saroo de Patel, que entra em depressão por não conseguir fixar uma identidade para si – conflito este engatilhado pela sua obsessão em encontrar sua família biológica (através das imagens de satélite do Google Earth e pelas complexas, e pouco desenvolvidas, relações estabelecidas entre o protagonista e Lucy (Rooney Mara, desperdiçada apenas como o interesse amoroso) e entre ele e sua família adotiva na Austrália.

A sensação é de que Davis espremeu seu material base ao máximo para extrair a maior quantidade de “suco” dramático possível. É por isso que a direção de fotografia – indicada ao Oscar – de Greig Fraser (que usa uma iluminação naturalista sem deixar de imprimir um tom estilizado ao filme) chama tanta atenção: não há conteúdo abaixo do belo regime de imagens de “Lion – Uma Jornada Para Casa”.

São as interpretações que seguram o filme. Mesmo quando o tormento de Saroo parece ser interminável, Pawar e Patel entregam interpretações convincentes e com boas nuances – o primeiro é um ótimo ator mirim e o segundo, finalmente, tem a chance de criar um personagem que é mais do que os estereótipos normalmente reservados à imensa maioria dos artistas não-brancos que trabalham na preconceituosa indústria de Hollywood.

Nicole Kidman também faz o que pode com um roteiro que apresenta diálogos muito sentimentais em certos instantes, fazendo por merecer as lágrimas que provoca nos espectadores.

No fim das contas, é melhor ver “Central do Brasil” (pela trama) ou algum documentário sobre a natureza disponível na Netflix (pela fotografia). “Lion – Uma Jornada Para Casa” é acima da média, mas também não é indispensável. Podem ser identificadas boas intenções na narrativa, mas elas, em sua grande maioria, não se convertem em bons resultados. Verdadeiro desperdício de potencial – mas as imagens são muito, muito bonitas; e também é uma ótima propaganda para o Google Earth.

 

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