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NOTA: 5 / Caio César

Não há dúvidas de que Gore Verbinski é um diretor acima da média. Habilmente transitou entre o drama, terror e os blockbusters – tendo como ponto alto no mercado o êxito dos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe e a consagração artística ao ganhar o Oscar de melhor animação com o western Rango. Entretanto, nada disso impede que A Cura seja um filme irregular que, embora visualmente deslumbrante, é sabotado por um roteiro raso e outras (várias) falhas de percurso.

Estrelado por Dane DeHaan, o filme acompanha Lockhart, um jovem executivo de uma financeira baseada em Nova York, em uma jornada para convencer o seu CEO a retornar à empresa para acertar os detalhes de uma negociação que deixará todos os envolvidos riquíssimos. O chefe saiu de férias para um Spa nos Alpes Suíços – um lugar mundialmente conhecido por oferecer a cura para os males da sociedade moderna: depressão, falta de alegria, entre outras coisas que você, leitor, sente na bad.

O filme é muito eficaz durante todo seu primeiro ato na ambientação do lugar para onde o protagonista está sendo levado. Há um choque proposital entre a cenografia do spa e a do mundo exterior, fazendo com que o espectador até se questione se a ação se passa mesmo nos dias de hoje. A direção de fotografia caminha para um rumo diferente do esperado, com tons frios e uma claridade – algo que não costumamos ver em filmes de terror (se é que este filme é um representante do gênero, mas ainda vamos chegar lá).

Outro destaque desta parte do filme é a trilha sonora. Ora macabra e lúdica, ora um tanto épica, ela abraça as cenas como se fosse mais um personagem do filme – de fato, o tema principal fica ecoando na cabeça durante toda a projeção.

É ao fim deste primeiro terço do filme que as coisas começam a desandar. Ao invés de criar um suspense legítimo, o roteiro expõe o personagem de Lockhart a situações repetidas, que acabam tendo o efeito contrário, e cansa o espectador. Tampouco fica claro o que é coisa da cabeça de Lockhart e o que está acontecendo no mundo real – algo que não é facilitado pela direção. E não estou falando sobre fazer o espectador pensar, mas sim de uma clara perda dos rumos do roteiro. Neste momento fica também claro que o filme não sabe se é um drama psicológico, um thriller, um terror ou uma fábula.

O tom descompassado faz com que fiquemos com a sensação de que nenhum desenvolvimento é eficiente. E quando o roteiro começa a dar sinais do provável desfecho, o espectador meio que já sabe de tudo – fazendo com que as resoluções sejam tolas e sem qualquer apelo. Óbvio que todas as soluções artísticas do terceiro ato (o mais trash possível) não ajudam nenhum pouco.

Ainda assim, é impossível não apontar que o diretor Verbinski constroi cenas que são plasticamente deslumbrantes. Uma sequência de um acidente de carro, em especial, pode ser marcada como um verdadeiro balé cinematográfico. Ele domina a composição das cenas e, principalmente nas que envolve algum tipo de violência física, a tensão aplicada e a perspectiva da audiência resultam nos pontos altos do longa.

Ao final de suas intermináveis duas horas e meia, o filme parece cansativo e presunçoso. Uma pena, depois de um início animador. Se fosse menor, o filme poderia ser ao menos divertido. Mas suas falhas pesam mais que os seus (consideráveis) acertos – resultando em um desperdício de um bom argumento. A cura pra isso talvez seja uma reedição para DVD com uns quarenta minutos a menos (e um novo final).

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