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NOTA: 8 / Renato Furtado

A década é 1960. James Baldwin, sozinho e em pé, discursa para uma multidão que o ouve atentamente. Com sua característica tom firme, quase espiritual – um Martin Luther King Jr. sem a componente religiosa -, o escritor e dramaturgo denuncia as engrenagens por trás da máquina opressora comandada pelo governo estadunidense, que continua dizimando a população negra com os caubóis fizeram com os índios. No momento em que termina sua fala, Baldwin deixa o púlpito e a imagem, em preto e branco, ganha cores.

Rodeando o escritor, um mar de pessoas brancas: é um contraste chocante – e é sobre justaposições quase “violentas” como esta (preto e branco – cores; negros – brancos; passado – presente), que “Eu Não Sou Seu Negro” – documentário de Raoul Peck que estende os escritos não terminados de Baldwin, a coletânea de memórias “Remember This House” – começa a esquematizar,  sem fazer concessões, um raio-x profundo das contraditórias e sangrentas fundações da sociedade estadunidense – e Ocidental como um todo.

“A história do negro nos Estados Unidos é a história dos Estados Unidos. E esta não é uma história bonita”, lembra a voz de Samuel L. Jackson, que narra a película de maneira a evocar as palavras e ideias faladas que filmes e vídeos não puderam registrar quando Baldwin (1924-1987) ainda estava vivo. E, através de inúmeros materiais de arquivos, diversas cenas de filmes de todas as épocas (Baldwin analisou o cinema à exaustão em seus ensaios) e fotografias e vídeos da guerra racial que vem tomando conta dos Estados Unidos nos últimos anos, o filme mostra que Baldwin estava mais do que certo.

De fato, Peck, em “Eu Não Sou Seu Negro”, não só demonstra que Baldwin estava correto sobre suas análises (“O meu sangue, o sangue do meu pai e o sangue do pai do meu pai estão nesta terra. Nós fundamos essa nação”), como também traça paralelos com os dias de hoje para assegurar que não desviemos o olhar da tela: a verdade, a infeliz verdade, é que nada mudou para os negros (e para todas as pessoas não-caucasianas) nos Estados Unidos e neste lado do mundo.

O quadro – como documentários como “A 13ª Emenda” e “O.J.: Made in America” e a série “The People vs O.J. Simpson” também demonstraram no ano passado – é alarmante e o documentário, que também funciona como a homenagem que Baldwin queria fazer aos seus três amigos assassinados, Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr., sucede ao apresentar o problema através da voz de seu protagonista.

Aliás, os momentos em que o filme peca são justamente os momentos que as épicas palavras proferidas pelo próprio Baldwin não estão na tela. Samuel L. Jackson faz um trabalho admirável, mas com o passar do tempo, tudo o que queremos é ouvir Baldwin discursar e apontar caminhos e soluções possíveis – a longo prazo, evidentemente – para um problema que dura mais de 500 anos.

Para o autor, os Estados Unidos não sabem o que fazer com a sua população negra uma vez que a necessidade de colher algodão não precisa mais ser preenchida. Assim, o governo encontra meios, através da mídia e da cultura popular, para ou neutralizar ou para matar a população negra. É uma estratégia nefasta – utilizada inclusive pelo queridinho da democracia, o “mártir” John F. Kennedy – que, infelizmente, forneceu os cruéis resultados esperados pelos seus perpetradores. No entanto, como Baldwin bem aponta, os “cadáveres do passado” estão falando.

“Não sou um pessimista porque estou vivo. Portanto, sou forçado a ser um otimista”. Esta declaração, como o filme bem prova, no final de sua projeção, não é um atestado de esperança passiva de que o mundo irá se ajustar. A voz e a força de James Baldwin tornam as palavras em um chamado à revolução – e todos os méritos à Peck por ter entendido isso com a sensibilidade, coragem e objetividade com que dirige “Eu Não Sou Seu Negro”.

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