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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

De um lado da pipa, está inscrito o desenho de um super-herói; do outro, o de uma galinha. Essas gravuras que fez são tudo o que o pequeno Abobrinha possui para lembrar de seu pai. Mas é só no momento em que a mãe do rapaz também parte de sua vida que “Minha Vida de Abobrinha” realmente tem início.


A partir daí, acompanhamos os passos do rapazinho conforme tenta se adaptar à vida no orfanato para o qual é enviado – à vida sem a mãe e à vida com outras crianças, que também tornaram-se órfãs por este ou aquele acaso do destino. Tristeza pura, certo? Errado.

O que o diretor Claude Barras e a roteirista Céline Sciamma (que escreveu, aqui, um guião belo, singelo, honesto, leve e dolorosamente real) fazem para distinguir seu filme dos demais é nunca recorrer ao melodrama ou ao sentimentalismo barato.

Posicionando as composições da trilha sonora de Sophie Hunger nos momentos certos, os cineastas ficam livres para criar imagens simples mas repletas de afeto, incorporando em cada elemento do filme (a pipa, a lata de cerveja que Abobrinha guarda da mãe, o barco de papel de Camille) uma sensação agridoce – o mesmo sentimento que temos quando lançamos um olhar para as alegrias e tristezas da infância, uma certa nostalgia que traz sorrisos e lágrimas ao mesmo tempo.

Aliás, “Minha Vida de Abobrinha” provoca essa miscelânea de emoções em seu espectador o tempo inteiro. Cada uma das crianças do orfanato tem seus momentos de revelação do porquê são como são conforme tomamos ciência dos abusos e tragédias que sofreram – o que, como o longa faz questão de frisar, não define esses jovens; eles também têm seus lados solares – e o quadro de “previsão do tempo” onde os órfãos podem dizer como se sentem, de ensolarados a nublados, é mais um elemento cativante da obra.

O único defeito de “Minha Vida de Abobrinha” é sua curta duração. Cada cena se encaixa perfeitamente, mas a beleza, tanto doce quanto triste, de algumas delas é tanta que poderiam ser mais estendidas – os desenhos de Abobrinha; o quarto de cactos do policial Raymond; os anjos de neve feitos pelos dois protagonistas; e Simon sentado embaixo da escada, considerando abrir ou não a carta que sua mãe lhe enviou.

Mas, independentemente disso, “Minha Vida de Abobrinha” é uma meditação calma e singela sobre os danos psicólogos causados por pais negligentes e um estudo profundo sobre a importância da inocência e da alegria infantil. Através dos olhos das crianças, “Minha Vida de Abobrinha” lembra a nós, os adultos, que sorrir, chorar e tentar seguir em frente, apesar de tudo, é essencial.

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