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NOTA: 9 / Renato Furtado

“Quem é você, Chiron?”, pergunta Kevin (André Holland) fazendo os conselhos de Juan (Mahershala Ali) – “Chegará a hora em que você precisará decidir por si mesmo quem você é” -, concedidos há mais de vinte anos antes, ecoarem nas memórias do homem (Trevante Rhodes) (ou Pequeno (Alex R. Hibbert), como era conhecido aos 9 anos de idade ou simplesmente Chiron (Ashton Sanders), “alcunha” de quando era adolescente). Mas o que “Moonlight: Sob a Luz do Luar” faz é ir além: as palavras proferidas e as luzes dos luares de Miami não ativam apenas as memórias dos protagonista; ativam as nossas também.

Fragmentado em 3 capítulos (infância, adolescência, fase adulta), o segundo filme do cineasta Barry Jenkins puxa a plateia pelo pescoço, com violência e delicadeza simultaneamente, e leva os espectadores para dentro das transformações que o imenso mundo interior – que, por vezes, parece se assemelhar a um redemoinho -, a fundação do universo estoico, silencioso, tímido e introvertido de Chiron, sofre conforme o rapaz avança (ou, ocasionalmente, tropeça) nos estágios da vida e nos rótulos que a sociedade ao seu redor lhe impõe.

Com uma sensibilidade rara, Jenkins nos coloca lado a lado (e, frequentemente, na posição de Chiron ao utilizar belíssimos e muito bem colocados planos subjetivos) com seu protagonista e nos faz testemunhar o bullying que o jovem sofre por ser “diferente”; a relação com sua irascível e viciada mãe, Paula (Naomie Harris); o encontro com Juan e Teresa (Janelle Monáe) a família que deseja ter; e sua ligação com Kevin (Jaden Piner/Jharrel Jerome/Holland) para tratar de uma das questões máximas da humanidade: a identidade.

“Moonlight” é um filme sobre o que não podemos ver, sobre o que não pode ser dito – as interpretações do soberbo elenco são tão humanas que estes mais parecem ser os personagens de um documentário -, sobre o que fica preso na garganta, sobre a cruz e o fardo que cada um precisa carregar em suas jornadas. E, no fim das contas, a identidade é justamente o amálgama inconsciente formado pela mistura destes momentos que não podem ser realizados, destes desejos que não podem ser concretizados, e de todos os instantes (todas as dores e todas as alegrias e todas as recordações) que nos formam.

Entender isto com o tato de Jenkins demonstra ter é para poucos. E, porque compreende tão bem seu roteiro, infunde e faz transbordar a poesia agridoce de uma identidade em formação (permanentemente em formação, diga-se de passagem) em cada plano, em cada corte e em cada nota da trilha sonora (que mistura música clássica e hip-hop) e na belíssima utilização das cores, principalmente o azul – “Os meninos negros costumam ficar azuis sob a luz do luar”, conta Juan, com os olhos marejados, lembrando-se da sua infância.

Ainda que o roteiro seja um pouco apressado demais – o frágil desenvolvimento de certos tópicos narrativos, resolvidos, ocasionalmente, através de coincidências, se manifesta no frágil desenvolvimento da personagem de Monáe, relegada apenas ao papel unidimensional de “mãe substituta” -, a direção de Jenkins compensa eventuais falhas de sua própria escrita (baseada em uma peça de Tarell Alvin McCraney), criando uma verdadeira peça cinematográfica.

Circula pela internet, atualmente, um vídeo da poeta portuguesa Matilde Campilho no qual discursa sobre o “porquê da arte”. Para ela (e concordo francamente), a arte existe para “fraquejar nossos joelhos, para nos afastar de ou nos chamar atenção para alguma dor” – para nos acalmar ou para nos acordar. É possível adicionar, ainda, que cada obra de arte trabalha de uma forma diferente em um espectador diferente porque é observada (ou vista ou apreciada) por uma subjetividade diferente.

E, quando Kevin pergunta “quem é você?”, “Moonlight” nos faz a mesma pergunta. Da maneira mais honesta possível, o filme, linear, realista, se abre não para múltiplas interpretações lógicas, mas para múltiplas interpretações afetivas. Cada membro da plateia será afetado por “Moonlight” de uma forma única porque, como toda grande obra de arte, este longa engloba inúmeras temáticas – além da identidade, a homossexualidade e a negritude também são questões caras à obra.

Portanto, é impossível afirmar o que cada um sentirá ao experienciar este filme. “Moonlight” não é um filme de ação ou um filme dramático desenhado para arrancar emoções específicas de sua plateia. Aliás, não é nada desenhado; Jenkins apresenta sua película da forma como ela é ao abrir as portas para o mundo de Chiron. Nos transporta do nosso para outro completamente diferente sem nunca nos tirar, efetivamente, de nossa realidade.

O que me emocionou foi como as máscaras que precisamos colocar para esconder quem somos pode definir quem nos tornaremos; a luta diária para aceitar o que somos; e a tomada de coragem necessária para sair às ruas, dia após dia, com a cabeça erguida, pronto para levantar de mais um soco – independente do jogo que tenta te obrigar a ficar no chão. O que é certo, de fato, é que é impossível sair ileso de uma sessão de “Moonlight: Sob a Luz do Luar”. Este é um filme que nos tira do eixo, que faz fraquejar nossos joelhos e que chama as nossas atenções às dores e alegrias como só uma verdadeira obra de arte pode fazer.

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