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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Há uma espécie de sabedoria popular no mundo do cinema que dita que um (grande) diretor repete o mesmo filme durante toda sua carreira. De fato, esse semi-ditado faz sentido uma vez que os artistas são movidos por suas obsessões, seus interesses mais profundos sobre temáticas que servem como combustível para suas criações. No caso de Martin Scorsese, o tema chave é a exploração da loucura do ser humano – principalmente de personagens que tomam rotas caóticas e insanas como uma forma de lidar com um universo (aparentemente) ordenado que só os repele.

De fato, a filmografia do cineasta está repleta de criminosos e psicóticos – homens que representam um desvio da norma, do padrão -, mas em “Silêncio”, seu mais recente filme, essa figura que se repete é a de um padre: Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield, em um papel pelo qual deveria ter sido indicado ao Oscar ao invés de sua interpretação de “Até o Último Homem”), um missionário jesuíta enviado ao Japão para tentar encontrar seu mentor, o Padre Ferreira (Liam Neeson) durante os anos da perseguição contra os cristãos no país.

Conjugando toda sua expertise como historiador do cinema e o vasto e raro talento como narrador visual que desenvolveu durante quase 50 anos como diretor – uma combinação de elementos que o credenciam como um mestre da sétima arte -, Scorsese faz confluir em “Silêncio” (projeto que tentou tirar do papel por mais de uma década) sua técnica, sua arte e uma questão-chave para compreender o autor que é: a religiosidade.

Presentes em boa parte de seus filmes, ideias como fé, crença e redenção tomam precedência nesta nova obra e transbordam de cada um dos belos planos (e são muitos) criados pelo diretor de fotografia Rodrigo Prieto. É por isso que “Silêncio” é um filme tão pesado quanto é: silenciosa ao extremo, fazendo jus ao seu título, esta é uma obra que requer uma certa preparação psicológica (e até mesmo física) de seu espectador para que este suporte, fielmente, as 2h40 da penosa e exaustiva jornada física e espiritual de Rodrigues e seu companheiro, o Padre Garupe.

A grande falha de “Silêncio”, aliás, reside especificamente no roteiro, que, longo demais, possui diversas quebras de ritmo que não apoiam a narrativa e apresenta personagens importantes em profusão, esquecendo-os em pontos importantes da trama – Garupe e Kichijiro (Yôsuke Kubozuka) são boas criações, mas seus desaparecimentos prejudicam esta adaptação do livro homônimo do escritor nipônico Shûsaku Endô. Assim, a escrita de Scorsese e de Jay Cocks torna-se desinteressante e entendiante em certas ocasiões.

Felizmente, Scorsese salva o dia na cadeira de direção. Além de comandar a melhor performance da carreira de Garfield e um trabalho excepcional de Tadanobu Asano como o auxiliador do temido Inquisidor japonês, o cineasta deixa fluir tudo o que aprendeu com a mise-en-scène de Akira Kurosawa, com o controle narrativo firme e, por vezes, restritivo de Robert Bresson e o senso megalomaníaco dos épicos de David Lean para compor uma aventura meditativa que atinge picos de peso dramático que, muito dificilmente, serão igualados neste ano.

Sua direção nos faz sentir todo o peso da opressão e não toma partidos, limitando-se a analisar as situações postas pela trama com sua paixão de sempre. Seja na crucificação à beira-mar, na sequência da inquisição na prisão ou no clímax de “Silêncio”, que nos deixa com um nó na garganta e com lágrimas reprimidas, Scorsese prova, vez após vez, que é um dos maiores realizadores de todos os tempos.

Por outro lado, ver sua brava direção também nos faz perceber que “Silêncio” poderia ser um filme melhor se não oscilasse tanto entre picos narrativos; se encontrasse, de fato, um ritmo confortável entre seu caráter contemplativo e a tragédia da perda da fé.

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