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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

A propósito do mais recente filme de M. Night Shyamalan, “Fragmentado”, parece existir um consenso universal posto pela crítica especializada: este é o retorno do cineasta à boa forma após anos entregando trabalhos esquisitos, pouco substanciais e (alguns deles), finalmente, ridículos, destinados apenas a serem lembrados como comédias involuntárias ou longas única e exclusivamente ruins.

O que certamente pode ser afirmado sobre este suspense é que ele não é ruim, muito por causa do fato de que “Fragmentado” (escrito pelo próprio Shyamalan) traz de volta todas as melhores características das boas obras do cineasta: uma trama repleta de suspense e muito baseada no mundo real; comentários sobre os perigos do fanatismo; uma direção simples, porém objetiva, que vai direto ao ponto; e ótimas interpretações.

Neste tenso thriller, James McAvoy retrata um homem portador de transtorno dissociativo de identidade, que carrega 23 personalidades dentro do próprio corpo. Tudo vai bem até que 3 dessas identidades se rebelam e decidem sequestrar três meninas – Casey (Anya Taylor-Joy) e suas amigas – para realizar algo misterioso e profano, que envolve o despertar de uma “Besta”.

Grande parte do impulso narrativo da película é justamente o grande mistério que jaz por trás das ações de Kevin (McAvoy). Escrevendo como no auge de sua carreira, Shyamalan cria uma narrativa seca e rápida e deixa que seu casal de protagonistas faça o seu trabalho.

Taylor-Joy, de “A Bruxa”, tem grande futuro. Suas habilidades cênicas parecem se adequar a qualquer tipo de gênero cinematográfico – e neste longa, ela vai do drama ao terror e ação com naturalidade. McAvoy, por sua vez, é o encarregado de explodir a cabeça do espectador com leves mudanças de expressão facial (as sobrancelhas fortemente arqueadas denotam uma personalidade, a língua presa de menino e a postura ereta e rígida de uma governanta arrogantemente apontam outras duas). A cada momento, o ator encontra mais uma forma de assustar ou de deixar o público ainda mais tenso; ambos incorporam o espírito do filme ao máximo: entreter através da tensão e de risos nervosos como todo bom longa deste gênero deve fazer.

Se há uma questão sobre a película é que o cineasta não consegue manter o pulso da narrativa e, momentos antes do inevitável clímax, “Fragmentado” se arrasta um pouco; aliás, é a promessa de um desfecho brutal que mantém a atenção da plateia. É a claustrofóbica ambientação (o longa se passa quase inteiramente em uma espécie de porão, uma galeria subterrânea) desenhada por Shyamalan a responsável por manter a qualidade do entretenimento apesar dos pesares.

Distante dos roteiros absurdos dos últimos anos (até mesmo as plantas se tornaram inimigas da humanidade em um dos filmes do cineasta) e de vampirizações de sua própria obra, Shyamalan encontrou o caminho de volta, reconectando-se, de fato, com os elementos cinematográficos e o estilo que fizeram sua fama no início dos anos 2000. Com direito a uma reviravolta nos 45 minutos do segundo tempo, o cineasta anuncia que está de volta ao jogo. E é verdade, ele realmente está. O público agradece.

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