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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Sentados em uma grande sala, um grupo de amigos assiste ao célebre discurso de Jimmy Carter, “A Crise de Confiança”. Proferidas em 1979, época em que a sociedade ocidental encarou um ponto de virada, fazendo sua transição da modernidade para os nossos tempos atuais (pós-modernos ou líquido-modernos), as palavras não soam bem aos ouvidos da maioria dos presentes. A não ser para Dorothea (Annette Benning), uma mulher de 55 anos que, formidavelmente, sempre consegue encontrar uma nova maneira de encarar a vida e cuja beleza e glória são retratadas com maestria por Mike Mills em seu “Mulheres do Século 20”.

Construída para ser uma carta de amor às mulheres do século 20, que conquistaram diversos direitos e avançaram muito na busca por seu espaço em uma sociedade (que, infelizmente, ainda é até hoje) patriarcal e machista, a película também é uma homenagem direta à mãe do diretor e uma peça de grande arte que, por meio de seus belíssimos momentos que praticamente encapsulam a vida como ela é, nos tiram do chão, nos emocionam e nos fazem lembrar de nossas próprias trajetórias.

Afinal de contas, aquele ou aquela que nunca conheceu uma mulher tão incrível e brilhante – por causa de todas suas qualidades e, principalmente, de seus defeitos – como Dorothea ou Abbie (Greta Gerwig) ou Julie (Elle Fanning) não sabe o que está perdendo enquanto ser humano. Juntas, as três tentam conduzir suas vidas, corrigir seus erros, navegar pelas dificuldades do destino e encontrar um amanhã melhor enquanto tentam tornar, de uma forma ou de outra, Jamie (Lucas Jade Zumman) – o filho adolescente de Dorothea – em um “homem bom”.

Mas o que é ser um homem bom, pergunta a personagem de Benning? A resposta não é fácil e o filme não tenta fornecê-la. Na verdade, são abertas inúmeras questões que Mills faz questão de não solucionar – e o brilho do cineasta, que recria os anos 70 com perfeição, é justamente deixar que seus personagens se revelem diante de nós conforme episódios cotidianos de uma vida, tão real quanto as nossas, se desenrolam com o vigor de uma canção punk e com a sutileza agridoce de “As Times Go By”, a música tornada um clássico por “Casablanca”.

O realismo das encenações (todo o elenco é fantástico e Benning está fabulosa como sempre – talvez como nunca) e dos diálogos rápidos, afiados e deliciosos de Mills fazem com que “Mulheres do Século 20” pareça ser uma docu-ficção, uma mistura de realidade e narrativa que, além de investigar a identidade feminina, explora a questão da subjetividade masculina, a virada de uma época e uma revolução cultural e social que modificou por completo uma sociedade.

Talvez a única problemática de “Mulheres do Século 20” seja a escala de qualidade dos pontos narrativos criados por Mills. A apresentação da trama é muito mais potente que o seu desenvolvimento. Felizmente, o cineasta consegue recuperar o pulso do filme nos seus momentos finais e, particularmente, em um discurso de Dorothea sobre o futuro.

Por isso, no fim das contas, o espectador vai querer sentar por algumas horas na cozinha de Dorothea para repassar o valor de suas ações com ela. Vai querer sair para dançar com Abbie e ouvir as desventuras de Julie. Vai querer ouvir Talking Heads com Jamie e observar William fazer suas peças de cerâmica. E, por fim, vai querer voar com eles, em um aeroplano que voa em direção ao sol. “Mulheres do Século 20” é como o final de uma tarde de verão que torcemos para ser infinita.

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